08/10/2021

Primeira Parte

 Capítulo 1

    Valentina está super atarefada essa semana, com a organização da festa de seus vinte anos de casamento. Tudo flui bem, mas sempre tem algum probleminha de última hora pra resolver… Quando tudo parece estar em ordem, aparece isso…! Convites ainda não estão prontos! A festa será no sábado e os convites não estão prontos!… E ela está nervosa, anda pela sala de um lado pro outro, pensando em como resolver esse problema…
__Quer parar com isso, Val?! Sente e tome seu café! - a voz forte de Otávio a assusta - Qual é o problema, afinal?
__Os convites não estão prontos ainda, Otávio! - ela murmura, enquanto senta à mesa - Não estão prontos! Isso é terrível, uma tragédia!
__Ah, é só isso…? Pensei que fosse uma coisa séria…
__Isso é uma coisa séria, meu amor! - serve o café, mas levanta de novo, está muito aflita pra pensar em comida… - Se não der tempo de entregar os convites, como vai ser?!?
__Valentina, nós já convidamos todo mundo, o convite é só uma lembrança da festa…
__Mas é importante, meu amor…! Se a Theodora me desse uma ajuda…
__Olha, a sua irmã anda às voltas com a viagem, não tem tempo pra essas coisas. Você pode resolver sozinha, né? - Otávio levanta, dá um sorrisinho e se aproxima dela - Vou ver as alianças com o Pierre Dumont. Ah, tem uns papéis pra você assinar, tudo bem?
__Ah, as alianças! - Valentina até se anima agora - Pelo menos uma notícia boa, querido! Eu vou com você no Pierre.
__Val, ouviu o que eu disse?
__Sim, as alianças…
__Não, os papéis pra assinar.
__Ah, mais papéis…! Coisa mais chata… A gente pode ver isso depois da festa?
Otávio abraça e beija Valentina no rosto antes de dizer:
__Infelizmente não. Preciso da sua assinatura até amanhã, Val. Pode ser?
__Tá bom… - ela suspira e quando vai retribuir o beijo, ele se afasta - Pode trazer que assino.
__Ótimo! Até a noite, Val. Não venho almoçar, muito trabalho acumulado… Tchau!
    Ela nem responde nada. Já está acostumada ao ritmo louco de trabalho do marido. Aliás, esse é o ritmo de sua irmã também!… Theodora trabalha demais, se dedica demais à empresa…! É uma mulher de negócios muito bem sucedida. Nada mais justo que tire férias, pra descansar um pouco, né? Uma viagem pra Itália, era o sonho de Theodora faz tempo! Valentina acha justíssimo. Pena que por conta dessa viagem Theodora não poderá ajudá-la com a festa…
    Tudo bem, tudo bem. Ela entende. Sua irmã é uma mulher incrível, talentosa e super responsável. Os negócios da família, dirige com mão de ferro, da mesma forma que conduz sua vida pessoal… Hum, mas que vida social? Theodora não tem vida social. É só trabalho, trabalho, trabalho… Bem ao contrário de Valentina. Enquanto Theodora assumiu a empresa da família logo que se formou em Administração, Valentina conheceu Otávio, se apaixonou por ele e trancou a faculdade para se dedicar integralmente ao marido e à casa… Ah, sim, ela é uma dondoca!… Mas uma dondoquinha do bem, que fique claro. Ela tem lá seus compromissos sim, com a casa, os projetos sociais que participa, com o marido… Não fica sem fazer nada, só desfrutando do seu dinheiro não! Tem seus compromissos. Agora, por exemplo, seu maior compromisso é a festa de vinte anos de casamento.

Capítulo 2

    Pierre Dumont dá um sorriso largo ao ver o casal de amigos entrando na joalheria.
__Como vocês estão, amis? É sempre um prazer recebê-los! - o homem indica duas belas poltronas na sala de visitas - Sentem-se, por favor.
__Querido Pierre, tô muito chateada com o atraso das alianças…! - diz Valentina - O que aconteceu, querido?
__Ah, sim… As alianças… - Pierre olha meio que nervoso para Otávio - Bem, eu realmente não sei o que pode ter acontecido para não ficarem prontas… Mas já estou tomando providências! Até amanhã estará tudo resolvido, chérrie!
__Valentina nem dormiu essa noite de tanta preocupação… - fala Otávio, nesse seu tom pausado e indecifrável de sempre… - Eu acho um exagero perder uma noite de sono por causa de alianças…!
__As nossas alianças, Otávio! - ela finge zanga, mas já conhece o marido e sabe que ele só que ele é assim mesmo… - Eu acho super importante! A festa é sábado e as coisas estão por fazer…! Isso é terrível, não acha, Pierre?
__Oui, muito preocupante! Mas eu tenho certeza de que conseguirão resolver tudo a tempo! quanto às alianças, não se preocupem, pois já estou resolvendo isso!
__Que bom, querido! Assim fico mais tranquila. - Valentina sorri e beija a bochecha rosada do francês - Você é um amor, Pierre!
__Não, você é que é um amor de pessoa, Valentine! Faço tudo pra vê-la feliz, chérrie!
__Podemos ir agora, Val? - parece que a paciência de Otávio chegou ao limite… - Lembra dos papéis que pra assinar?…
__Ah, é verdade! Temos que ir, Pierre. Vou passar na Maison Rossi pra resolver umas coisinhas chatas…
__Tudo bem, eu entendo.
__Quando as alianças ficarem prontas, me avise, Pierre. - ah, Otávio sempre soube dar ordens…
__Oui, oui, Otávio. Fiquem tranquilos.
    Agora só falta resolver a estória dos convites! Valentina quer que tudo fique lindo e perfeito… Afinal, vinte anos são vinte anos, eles têm mais é que comemorar! Um casamento feliz, tranquilo, com o homem que ama, que já dura vinte anos… Valentina fecha os olhos e sorri ao lembrar de quando conheceu Otávio. Ela era ainda uma adolescente, quando se apaixonou pelo belo rapaz que trabalhava como garçom no salão de festas de seu pai…
__Val, já chegamos. - diz Otávio, parando o carro. - Você tá bem?
__Sim, eu tô ótima! Vamos lá assinar essa papelada chata de uma vez! - e rindo, ela desce do carro.
__Papelada importante. É o nosso patrimônio, querida. Temos que cuidar muito bem dele!
    A Maison Rossi é um grande patrimônio sim, senhor! O que lá no começo dos anos 70 era apenas um salão de festas acanhado num subúrbio do Rio, hoje é uma das melhores casas de festas e buffet do rio de Janeiro…! Herança de seus queridos pais, que trabalharam muito para construir algo para as filhas no futuro… Vitório Rossi adorava festas e Luísa amava cozinhar. Um casal festeiro, que gostava de receber os amigos em casa na Tijuca, acabou transformando o prazer em negócio. Pena que Valentina herdou os talentos dos pais… O jeito para os negócios do pai e o gosto pela culinária da mãe, nem chegaram perto de Valentina!… Já Theodora teve mais sorte: tornou-se uma excelente empresária e assumiu a Maison Rossi depois que o pai morreu. Mas como ninguém é perfeito, Theodora não leva muito jeito para a vida doméstica… E menos ainda para ser mãe! Marcos que o diga…! Valentina entende a irmã, não a condena por suas pequenas falhas. Mas a verdade é que ela sabe o quanto as escolhas de Theodora pesam em sua vida…
    Aliás, as escolhas de Valentina também pesam um pouquinho. Quando casou com Otávio, estava no primeiro ano da faculdade de Artes. Decidiu trancar a faculdade para cuidar exclusivamente de seu marido e seu lar… Ah, também nunca se interessou muito em trabalhar na empresa da família. Não entende nada de negócios, melhor continuar cuidando apenas da sua casa e da sua vida…!
__Aqui estão os papéis, Val.
    Ela veio pensando nessas coisas todas enquanto entravam na Maison e agora que estão na sala de Otávio é que se dá conta disso…
__Ah, sim, claro. Onde eu assino?
__Precisa ler primeiro, Val. - Otávio dá um sorriso charmoso.
__Ah, por favor… Eu não entendo nadinha disso tudo aqui, meu amor! Onde eu assin, Otávio? Confio em você, como sempre.
    Ele suspira, entrega uma caneta à ela e diz:
__Assine aqui. Mesmo que não se interesse pelo que acontece nesta empresa, eu vou dizer do se trata… É apenas uma autorização de compra para o buffet. - ele diz, como se explicasse a uma criança… - Entendeu?
__Tudo bem, meu amor. Não precisa explicar nada. - ela dá um beijinho nele e caminha para a porta - Posso ir agora?
__Sim, tudo bem.
__Vou ver o que consigo resolver com os convites! Tchau, querido!

Capítulo 3

    Comidas, bebidas, ornamentação, música. Tudo quase pronto! Valentina acordou mais cedo do que o de costume, animadíssima, ansiosa por começar a organizar as coisas para a festa…! Nem toma café da manhã, só pensa em ir para a Maison ver como estão os preparativos. Precisa verificar o buffet, falar com os músicos, conferir a decoração, enfim, mil coisas pra organizar em tão pouco tempo…Entra na sala e vê as malas perto da porta.
__Bom dia, Val. - a voz de Theodora bem atrás dela…
__Bom dia, irmãzinha! Mas você não ia viajar depois da festa?
__E vou. Mas tenho um compromisso de negócios em São Paulo - Theodora pega as malas e dá um sorriso, encarando a irmã - Não se preocupe, volto a tempo pra festa. Eu não perderia isso por nada nesse mundo…!
Valentina ri, beija a irmã no rosto e dá um abraço carinhoso.
__Eu sei, irmãzinha! É por isso que te amo, Theo!… Boa viagem, então!
__Até logo, Val.
    Assim que Theodora sai, Valentina rretorna aos seus pensamentos sobre a festa. Meu Deus, que loucura…! Precisa ir a Maison ver como estão as coisas! queria muito que Theodora estivesse aqui pra dar uma força… Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo… Ou seja, cuidar dos negócios. Bem, que seja Theodora. Enquanto isso, ela cuida da sua vida, o que é bem complicado, às vezes. Nossa, já são nove e meia! Precisa correr, se quiser chegar a tempo na Maison!… Ah, mas antes, uma palavrinha com sua amiga Nicole Blaire…! Valentina sobe rapidamente as escadas e enquanto entra em seu quarto, pega o celular e liga para Nicole…
__Olá, querida! Tem um minutinho pra mim?
__Claro que sim, Val! O que deseja de mim, amor?
__Bem, é sobre a festa, Nicole… - senta na cama e tira os sapatos - Queria que você fizesse uma “mini” matéria sobre a minha festa de bodas na revista… Pode ser?
__Seu pedido é uma ordem, coração! Mas o Otávio tá sabendo disso? Ele foi bem claro quando disse que não queria muita divulgação da festa…
__Ah, sim, ele disse… - tira a roupa e corre para o banheiro - Mas não vai ser uma grande reportagem, tipo capa de revista e tal… Só uma reportagem simples, quase uma nota. Talvez ele nem perceba quando ler a revista…
__Bem, eu vou ver o que posso fazer, querida. Mas não quero me indispor com Otávio… Isso não seria bom pra La Carte…
__Deixe o Otávio por minha conta. Eu resolvo com ele. Se fizer esse favor, eu vou ficar super feliz, Nicole!
__Eu também, Val. Pode ficar tranquila, vou ver o que arranjo por aqui.
__Obrigada, querida! Você é um anjo!
    Ela toma um banho rápido, se arruma e sai para a Maison. Nossa, sua cabeça está a mil! Queria que Otávio estivesse organizando tudo ao seu lado, dando aquela força… Mas ele é um homem muito ocupado, sempre às voltas com os problemas das empresas… Não sobra muito tempo para as coisas da casa… Ela entende, fica um pouquinho chateada, mas entende sim.
“__Acho que não tenho muito jeito pra lidar com essas coisas, Val… Essas bobagenzinhas da vida doméstica não tem nada a ver comigo! Você cuida de tudo isso tão bem, com tanto carinho e capricho…! Só vou atrapalhar se me meter com essas coisas!”
    É o que Otávio sempre diz quando Valentina lhe pede ajuda pra resolver algum assunto da casa, dos empregados… Tudo bem, ela dá conta. Sempre deu. E olha, ela gosta de fazer isso! Agora, neste exato momento, ela está conversando com os músicos na Maison. Quer que tudo fique perfeito! Ah, os garçons! Acabou de lembrar que precisa ver os garçons!
__Vou precisar de uma pessoa para ajudar na cozinha em minha casa. Você pode ceder alguém, Luiz?
__Hum… não sei. Vou ver se tenho alguém disponível.
    Enquanto espera, Valentina pensa. Assim, do nada, vem a lembrança de seus pais… Eles ficariam muito felizes por ela! O casamento de Vitorio e Theresa durou quase trinta anos e só acabou com a morte de Theresa.

Capítulo 4

    Ter amigos é muito bom! Valentina consegue dois garçons para ajudar em casa. Está ansiosa, um tanto aflita… Ainda pensa em seus pais… Vitorio Rossi era um homem alegre, que adorava cozinhar… Ele era um excelente anfitrião, recebia os amigos em casa sempre com simplicidade e charme… Mas sua esposa Theresa era quem de fato comandava os negócios…! Sim, ele tinha jeito para os negócios, sabia “fazer dinheiro” muito bem, caso contrário não teriam prosperado tanto… Mas Theresa tinha aquele “quê” de empresária, um faro para bons clientes, boas ideias, que transformou aquele simples serviço de buffet do subúrbio em uma das melhores empresas de organização de festas do Rio de Janeiro…! Theodora herdou o “feeling” da mãe para administrar os negócios. E Valentina? Ah, ela herdou a alegria, o bom humor, o jeito sociável, até a ingenuidade do pai… Ela sorri enquanto dirige de volta para casa. Seus pais ficariam muito felizes ao vê-la bem casada, os negócios indo bem, Theodora administrando a pequena fortuna da família… sim, Vitorio gostava de Otávio. Ele demorou um pouquinho para aprová-lo como genro, mas depois que o viu cuidando dos negócios ao lado de Theodora, entendeu que Otávio era o homem certo para Valentina.
    O homem certo. Ela se apaixonou por Otávio quase que instantaneamente, sentiu-se atraída pelo jeito calmo, seguro e sedutor dele… Mas no começo não pensava em casamento. Estava estudando, tinha suas amizades, casamento nem passava pela cabeça… Mas quando Otávio lhe deu um anel de noivado, assim, do nada, depois de dois anos de namoro, ela ficou completamente encantada…! E, claro, aceitou casar com ele! Lembra do dia de seu casamento. Lembra de cada dia de seu casamento. Desde a lua de mel até ontem… Ela continua apaixonada, como a vinte anos atrás…
*************************************************************************
    Assim que entra na cozinha ela vê os dois homens, vestindo uniformes da Maison Rossi, arrumando as taças e alguns pratos. Dá um sorriso e se aproxima deles.
__Boa tarde! Tá tudo certo por aqui? A Nora já disse o que precisam fazer?
__Sim, senhora. - diz o homem mais baixo, de grossos óculos de grau - A gente já tá sabendo tudinho.
__Ótimo! Se precisarem de alguma coisa, é só falar com a Nora, ok? - Valentina sorri de novo - Como se chamam?
__José Carlos, mas pode chamar de Joca. - o baixinho sorri, muito a vontade…
__Eu sou Antonio. - diz outro mais alto.
__Prazer conhecê-los, rapazes! - Valentina faz um gesto engraçado com as mãos e vai caminhando até porta.
__Se a senhora precisar de alguma coisa, fala com a gente… - ele cutuca o amigo - Né, Antonio?
    O rapaz sorri.
__É, claro. Bom dia, senhora.
__Obrigada! E um bom dia pra vocês também!
Joca dá um tchauzinho como se já fosse íntimo dela, enquanto Antonio apenas sorri de leve ao ver a patroa sair da cozinha.
__Ela parece gente boa, né? - comenta Joca, voltando a arrumar as taças sobre a mesa.
__É, parece. Mas ela é a patroa, certo?
    Joca dá uma risada.
__Caramba, meu amigo! Pra quê essa dureza toda?!
__Patrão é patrão, empregado é empregado.
__Xi, para com esse papo de moral!
__É assim que as coisas são, Joca. Tem gente que é patrão e tem gente que é empregado.

Capitulo 5

    Antonio respira fundo, coloca as taças sobre a mesa e então pega o celular. Nenhuma ligação… Nenhuma ligação! Uma semana e até agora Maura não ligou… Ele começa a se preocupar. Bem, não é a primeira vez que ela some…! Volta e meia, quando alguma coisa não sai do jeito que quer, Maura desaparece… E isso acontece com muita frequência…! Antonio não consegue entender a insatisfação constante da esposa, as suas reclamações, suas lamúrias, sua raiva… Seu casamento vem tendo alguns probleminhas, admite. Mas nada tão grave, coisas comuns em todo relacionamento. Antonio e Maura estão juntos há dezessete anos… Se conheceram ainda bem novinhos, meio que adolescentes… Se apaixonaram, namoraram e então quando nasceu o primeiro filho, decidiram casar.
    Vida de pobre, simples, sem luxo, passando por mil dificuldades quase sempre, mas com muito amor, alegria e esperança… Bem, essa é a visão dele, não a de Maura.
Antonio suspira e pensa em como as coisas poderiam ser diferentes se Maura não reclamasse tanto… Ele observa o entusiasmo da patroa com a organização da festa de seu casamento. Puxa vida, isso sim é que é um casamento! Com certeza os patrões se amam, são muito felizes, têm uma vida boa…! Porque com Antonio não pode ser assim também?… Ele ama Maura, sempre amou. Ama seus filhos, ama sua vida, mesmo sendo pobre, morando de aluguel, cheio de dívidas, desempregado, fazendo biscates… Ele ama sua vida. Porque com Maura não pode ser igual? Ela se revolta, grita, xinga, reclama… E põe a culpa em Antonio.
__Ei, companheiro! Presta atenção aqui, por favor! - a voz de Joca o tira de seus pensamentos…
__Hã…? Foi mal, Joca. O que tá acontecendo?
__Tá acontecendo que você tá paradão aí faz tempo e o serviço ainda por fazer…! - isso é uma reclamação…?
__É que eu tava tentando ligar pra Maura…
__Hum… sei. Ela não deu sinal de vida, né?
__Acho que o celular tá descarregado ou fora de área…
__Ela sumiu e ainda não deu sinal de vida. Tudo bem, meu amigo… Vamos trabalhar e esquecer os problemas um pouco. Vamos lá?
__Tá legal, vamos trabalhar.
    Claro que sua cabeça continua ligada em Maura e mais ainda nos filhos que estão sozinhos em casa… Mas precisa trabalhar, não é?…

Capítulo 6

    Antonio trabalha quieto, apesar da tagarelice de Joca o tempo todo na sua cabeça. Seus pensamentos estão em Maura, em seus filhos e na relação complicada que é seu casamento. Sim, complicada. Ele é feliz, ama sua esposa, seus filhos, sua vidinha básica… Mas Maura não é feliz. Ela odeia sua vidinha básica! Queria entender o que ela deseja mais, queria poder entender o que se passa dentro da cabeça dela…
    Maura nunca parece satisfeita, nunca… Sempre, ou quase sempre, mau humorada, irritada, gritando e xingando por causa de tudo…! Bem, ela não era tão brava assim quando se casaram. Antonio se apaixonou justamente pelo jeito sonhador e jovial dela. Maura tinha muitos sonhos, muitos planos, assim como Antonio. Queriam ter uma família, uma casa, um bom emprego… Essas coisas que um casal normal sonha quando se casa.
    Nos dois ou três primeiros anos, tudo foi bom, os filhos pequenos, o entusiasmo em começar uma vida juntos… Então, as mudanças começaram a acontecer. Não com Antonio, mas com Maura. Ela queria mais do que uma vida básica de pobre… Queria roupas caras, jóias, carro importado, morar na Zona Sul, uma conta no banco bem gorda… Queria viajar, se hospedar nos hotéis caros, frequentar os lugares chiques… Queria., queria muito e muita coisa! Coisas que seu marido não podia lhe dar. Aliás, ela continua querendo todas essas coisas… Não com a mesma intensidade da juventude, mas ainda quer, ainda se revolta, ainda briga com a vida…
    Antonio, por sua vez, tem feito o possível para agradar a esposa nesses anos todos. Tenta ser compreensivo, ouvindo as queixas e xingamentos… Tenta encontrar uma forma de melhorar a situação financeira para satisfazer os desejos dela… Se esforça ao máximo para ajudar na criação dos filhos e até mesmo nas tarefas em casa… Ele se esforça, ele luta, ele dá o sangue e o suor para manter o casamento numa boa, mas… Mas Maura parece não perceber nada disso. Ela apenas reclama, reclama, reclama… E amaldiçoa o casamento, os filhos, a “vidinha básica” que leva…!
    A vidinha básica. Mas o que tem de errado em levar uma vida simples, “básica”?! Ele é feliz mesmo sem muita grana ou luxo. Ele é feliz com os filhos, a casa de aluguel, o emprego chinfrin… Ele é feliz, caramba!
__Teu celular tá tocando, Antonio! - Joca quase grita ao lado dele - Tá ouvindo não, cara?!?
Antonio agarra o bendito celular e atende, em suspense.
__Alô? Maura?
__O que foi, tava onde que não atendeu o celular, infeliz?! Tô ligando faz tempo, droga!
__Onde você tá? - ele nem liga pros bons modos dela…
__Em casa, né! Não tem nada pra comer aqui, Antonio! Eu tô com uma fome da porra!!! Você não fez comida, a casa tá uma zona… E as crianças não foram pra escola! Qual é, hein?!?
__A Laura não fez almoço? Eu disse pra ela fazer…
__Olha só, eu tô cansada, muito cansada! Cansada dessa merda de vida, de você, dessas crianças preguiçosas…! Vou pra rua, vou comer na rua! E quando tu chegar em casa, vê se faz uma comida decente pra mim e pros teus filhos, tá ouvindo? Tchau!
__Onde você tava esses dias todos, Maura? Alô?
__Tava esfriando a minha cabeça! Tchau! - e desliga o celular…
    Antonio fica paralisado por alguns instantes. Isso dói, sim… Dói muito. Mesmo sendo a milésima vez que Maura faz isso, ele ainda sente. Não só pelo seu casamento, mas por seus filhos.
__Deu ruim, né, companheiro…?
__Tá tranquilo, Joca. Quando chegar em casa resolvo tudo.
__Eita mulherzinha brava a sua!
__Pois é… Maura é muito nervosa, sabe…
__Nervosa, Antonio? Ela é uma mala sem alça e sem rodinha, isso sim! Larga essa criatura, homem! Você é um cara legal, merece uma garota legal! Despacha esse ebó, meu amigo, vai por mim!
__Para com isso, Joca! Tá exagerando, cara!
Joca dá uma risada.
__Exagero é a tua esposa ficar semanas fora de casa, sem dar sinal de vida e quando volta bota a maior banca contigo…! Olha… isso é papo de traíra, meu amigo!
__Tá querendo dizer o quê? - ah, ele sabe muito bem, claro que sabe…
__Tu não acha que pode ser corno, Antonio?
__Chega desse papo furado! - ele se irrita mesmo! - Vamos trabalhar que é melhor!

Capítulo 7

    Quando chega em casa, lá pelas onze da noite, já está tudo resolvido. Laura e Tiago estão dormindo, a casa está arrumada, o jantar pronto na mesa… Antonio entreabre a porta do quarto e vê Maura dormindo. Ele fecha a porta com cuidado e se volta para Sílvia.
__Obrigado, tia. Mais uma vez. - ele beija a tia no rosto.
__Não agradeça, meu filho. Faço por você e pelas crianças. Você merece tudo que eu puder fazer!
__A Maura anda muito nervosa ultimamente, angustiada, sabe…? Muito problema na cabeça dela, coitada…
__Que coitada coisa nenhuma! Ela é uma safada, egoísta, preguiçosa, isso sim! Problema na cabeça… Pois sim! E na tua cabeça tem o quê? Chifre?
__Qual é, tia! Dá pra parar com esse papo de chifre?!
__Ah, vai dizer que não pensa nisso, Antonio?!? Essa sem vergonha é bem capaz de tá botando um par de chifre em você, seu bobo!
__Para com isso, tia! Não tem nada de chifre, não! A Maura tem os problemas dela, dentro da cabeça dela, essas revoltas, essas coisas esquisitas… Mas a gente se entende, tá? A gente tem umas briguinhas, coisa boba, de casal, mas a gente se entende…
    Sílvia segura a mão dele, muito maternal, carinhosa como sempre.
__Meu querido, sabe que eu te amo como se fosse meu filho… E eu quero te ver feliz, realizado, amado como bem merece ser…! E eu te conheço como a palma da minha mão, Antonio, sei que tudo isso que tá dizendo é pra se enganar… Você e a rainha da cocada preta não se entendem coisa nenhuma…! E eu te pergunto: isso é vida? Isso é amor?
__A gente vive do nosso jeito, tia. E é isso que importa.
__Acredita mesmo no que tá dizendo, meu filho?…
    Antonio beija a tia. Bem, ele precisa acreditar. A relação deles é meio esquisita, cheia de altos e baixos… Mas eles dão conta do recado, aguentam bem. Claro que o temperamento de Maura atrapalha às vezes…
__Que falatório é esse, hein?!? - ah, sim, ela acordou… - Eu quero dormir, caramba!
__Ah, desculpa, bela adormecida! Atrapalhei teu sono de beleza?… - Sílvia dá uma risadinha…
__Olha só, dona Sílvia, já passou da hora de velho dormir! Vai pra tua casa, vai!
__Maura, chega! - diz um já nervoso Antonio, segurando Maura pelo braço - Acho melhor você voltar pro quarto e dormir.
__E vou mesmo! Mas antes essa bruaca vai sair da minha casa agora!
__Sua casa?! Quem paga o aluguel? Você?
__Boa noite, tia. - ele se apressa em dizer, empurrando a tia na direção da porta - A gente conversa melhor amanhã.
__Tá certo, meu filho. Você tá cansado, trabalhou muito… - Sílvia beija o rosto dele - Boa noite, querido.
    Assim que a tia vai embora, Antonio encara Maura.
__Por onde você andou, Maura? Eu fiquei preocupado e…
__Ah, me poupa desse mimimi, Antonio!
__É verdade, fiquei preocupado! Quase quinze dias dessa vez, Maura! Você some, não dá um telefonema, evapora totalmente! Nem lembra dos filhos, mulher…! Largou as crianças sozinhas!
__Que crianças o quê! Eles já são adultos ! Podem se virar muito bem sozinhos!
__Menor de idade, os dois. - ele nem sabe como ainda tem forças pra ter essa conversa pela milésima vez…! - Nossa responsabilidade, Maura.
__Ah, não vem com esse papo moralista não! Eu já tô cheia dessa tua conversa de bom moço, Antonio! Responsabilidade! Eles já são adultos sim, porra! Com a idade deles eu já era casada!
__Não pode sumir por semanas, largar os filhos, a casa, o marido e voltar como se nada tivesse acontecido!
    Ela fica quieta, anda de um lado para o outro, cara fechada…
__Vou dormir. Chega desse estresse. Boa noite.
__Eu também vou. Amanhã a gente conversa.

Capítulo 8

    Valentina sorri ao ver o vestido da festa sobre a cama. Ah, está lindo! E mais uma vez, lembra dos pais. Engraçado, está desde o começo da semana pensando neles…! Talvez seja pela emoção da festa, porque adoraria que seus pais estivessem presentes nesse momento de sua vida… É, talvez seja isso mesmo.
    Está tudo quase pronto, só faltando alguns pequenos detalhes… Seria bom se Otávio tivesse um tempinho pra resolver essas coisas com ela… Mas ele não tem tempo, está sempre muito ocupado. Até mesmo às vésperas de sua festa de vinte anos de casamento!… Tudo bem, ela compreende. Valentina suspira, franze a testa. Não, não tá tudo bem. E ela não compreende. Essa é a verdade. Lá no fundo de seu coração, ela não compreende essa e outras lacunas deixadas pelo marido ao longo desses vinte anos…
__Bom dia, Val. - a voz de Otávio preenche o quarto e ela se assusta - Acordou cedo porquê? - e ele nem percebe nada…
__Por que amanhã é o nosso grande dia, querido. - ela fala, mas não acredita em sua própria voz… Esqueceu, Otávio?…
    Ele sorri e se aproxima dela, dá um beijinho rápido em seu rosto e diz antes de se jogar na cama:
__Ah, sim… A festa. Claro que não esqueci. Há cinco meses que você não deixa ninguém esquecer, Val.
    Valentina olha para ele, um tanto surpresa com o tom irritado…
__Pensei que era importante pra você comemorar nosso aniversário de casamento…
    Otávio fecha os olhos, dá mais um sorrisinho.
__Claro que é importante, Val. Eu me importo sim. Mas você sabe que não tenho muito jeito pra lidar com essas coisas… Prefiro que você fique à frente de tudo, meu bem.
    Ela sorri, apesar de não entender muito bem esse comportamento de Otávio. Bem, ele realmente não é muito chegado na vida doméstica, não se interessa muito pelo acontece em sua casa, com sua esposa… Afinal, ele é um homem de negócios, tem coisas mais importantes para se preocupar. Deita-se ao lado dele, fazendo um carinho em seu rosto.
__Eu sei, querido. Mas pelo menos hoje você deveria deixar o trabalho um pouco de lado e prestar um pouquinho de atenção nos preparativos da nossa festa…! Será uma noite inesquecível pra nós, Otávio!
__Tenho certeza que sim, meu bem. Uma noite inesquecível…
__Quer ir até a Maison comigo? Preciso da sua opinião sobre algumas coisas do cardápio…
    Otávio levanta de repente.
__Sério? Precisa mesmo da minha opinião?
__Eu gostaria sim, querido. Por favor, Otávio…
__Tudo bem. Mas não posso demorar, tenho um contrato pra fechar antes do almoço.
    Valentina sorri e levanta, pulando sobre o pescoço dele.
__Obrigada, querido! Eu te amo!

Capítulo 9

    Antonio e Joca começam a arrumar as louças para a festa na Maison. Amanhã é o dia da festa de Valentina e Otávio Montenegro e tudo precisa estar impecável! Aliás, o casal acaba de chegar… Antonio observa os dois, um tanto curioso e outro tanto com uma pontinha de inveja… Valentina está abraçada ao marido, muito sorridente, olhos brilhando de felicidade… Otávio, por sua vez, está sério, mas abraça a esposa com carinho enquanto observa os preparativos finais para a festa.
E    les parecem felizes, sim. Como Antonio gostaria que seu casamento fosse assim, feliz, cheio de cumplicidade e amor…! Seu casamento é cheio de brigas, discussões inúteis, acusações e cobranças…! Sim, ele ama Maura. Ama mesmo?… Ah, ele já não tem tanta certeza disso… E talvez ela não o ame mais também. Talvez tenha se cansado, depois de todos esses anos, dessa vidinha básica que Antonio oferece… Mas isso, uma vida básica, é tudo o que ele pode oferecer…
__Bom dia! Como estão as coisas, queridos? - pergunta Valentina que acaba de se aproximar com o marido - Tudo certo? Algum problema?
__Tá tudo certo, senhora. - responde Joca - A patroa pode ficar tranquila que tá tudo certo por aqui!
__Ah, que bom! Isso é muito bom, né, Otávio? Você já viu como esses talheres são lindos, querido?! - a voz dela é toda alegria, entusiasmo!…
    Otávio respira fundo, sorri, mas dá pra notar um certo tédio em seus olhos…
__Ah, sim, são lindos. Podemos ir agora? Tenho uma reunião importante daqui a pouco, Val.
__Só mais um minuto, amor! Vamos ver o buffet e as bebidas…
__Que parte do que eu falei você não entendeu? Val, eu tenho um compromisso muito importante agora e não posso ficar nessa brincadeira com você! - ele olha para o relógio, se desvencilha dela e sai andando apressadamente em direção à saída da Maison.
    E Valentina fica parada, boca enteaberta, sem saber o que dizer ou fazer… Bem, esse é o seu marido! Dá um sorriso sem jeito e diz:
__Homens de negócios! Continuem o trabalho de vocês, rapazes! Eu vou dar uma olhada na cozinha.
    Constrangida. Valentina está tremendo de constrangimento! Otávio tem um jeito um tanto indiferente em relação às coisas que Valentina faz, mas ser grosseiro com ela na frente de estranhos, isso nunca aconteceu!… Bem, não dessa forma tão óbvia, tão direta… Há sempre uma certa sutileza nas palavras de Otávio quando ela fala sobre as coisas que está fazendo, que esconde a indiferença e o pouco caso… Na verdade, ela nunca se importou com isso, pois aceita o temperamento do marido. Aceitar, concordar, isso é o que ela tem feito nesses vinte anos.
__Senhora? - uma voz forte bem atrás dela…
__O que é? - Valentina se vira e dá com Antonio parado com duas travessas nas mãos - Algum problema?
__Mais ou menos. Não cabe mais nada na mesa do salão… Onde essas travessas vão ficar? - ele fala, mas percebe que ela não presta muita atenção…
__Ah… Bem, eu não sei. Talvez seja melhor guardá-las.
__Tá certo. - ele olha para ela - Desculpa perguntar, mas… A senhora tá bem?…
__Sim, estou. Tá tudo bem, obrigada. Coloque dentro dos armários, por favor.
__Tá bom.
    Claro que ela não está bem. Depois do fora que levou do marido, não pode estar bem! Antonio sai da cozinha pensando em como um homem pode tratar mal uma mulher tão delicada como a patroa Valentina… E pensa, claro na sua esposa. Maura é o oposto de Valentina: mau humorada, agressiva, histérica…! E apesar de tudo, ele nunca foi grosseiro ou incompreensivo com ela. Ao contrário, mantém a calma, procura as palavras quando fala com Maura, tenta entendê-la.
__Teu celular tocou feito louco, meu amigo! - diz Joca - Acho que era a Maura…
__Ah, tá… Eu vou ligar pra ela.
    Poderia deixar a ligação para outra hora, mas quer saber o que está rolando em casa. Se é que Maura está em casa…
__Alô, Maura? Você me ligou?
__Onde você tava, Antonio?
__Eu tô trabalhando, lembra?…
__Olha só, eu preciso dar uma saída… Vou fazer uma faxina em Caxias… A grana vai ser boa. Eu vou dormir lá, só volto na segunda-feira. O Thiago tá com dor de dente e a tua tia levou no dentista… Você vai ficar com as crianças, tá?
    Engraçado o tom de voz dela… Calmo, baixo, super zen…! Muito estranho. Maura não é assim, não fala manso, com cuidado, quase com educação… Antonio está desconfiado, mas melhor não provocar a fera.
__Bom, eu também ia trabalhar amanhã… Mas tudo bem, eu fico com eles.
__Ótimo! Até segunda, então. Tchau!
    E ela desliga rápido, sem dar chance pra ele dizer mais nada…
__Ih, já vi que deu ruim…! - fala Joca, com uma risadinha - O que ela tá aprontando agora?
__Não sei, meu amigo… Melhor não pensar nisso agora. Ah, acho que não vai dar pra trabalhar amanhã… Meu filho tá doente, preciso cuidar dele.
__Eu sabia, eu sabia! A descarada da Maura vai sumir de novo! Olha, eu acho que você devia vir sim… A grana é boa, meu amigo! Um dinheirinho extra sempre é bom!
__Meu filho tá doente, Joca. E a tia Sílvia não pode cuidar dele… A Maura arranjou trabalho em Caxias, vai dormir no trabalho. Quebra essa parada pra mim, meu amigo…!
__Tá legal, tá legal… Vou ver com o pessoal aqui como vai ser o esquema amanhã… Mas ó: isso é mais uma armação da cobra descarada!
__Valeu, Joca. Fico devendo essa!
    Armação? Da Maura? Pior é que ele sabe disso. Não acreditou muito na estória da tal faxina em Caxias… Não faz ideia de onde ela vai, mas também nunca se interessou em saber. Talvez por medo. É, medo de descobrir algo que abale ainda mais o seu já tão frágil casamento… Ele nem quer pensar nisso. Prefere se preocupar com os filhos, com o trabalho. Só que não…

Capítulo 10

    Valentina olha para Marcos e sorri. Ele se parece tanto com seu pai! É um belo rapaz, sem dúvida. Valentina suspira. Ela gostaria muito de ter filhos… Infelizmente, não pode. Lamenta por isso, mas aceita. Sua irmã, teve essa benção…
__Tá olhando o quê, Val? - diz Marcos, meio atrapalhado com o nó na gravata.
__Eu tenho o sobrinho mais lindo do mundo! - ela ri, ajudando a fazer o nó da gravata dele - E tá ainda mais lindo nesse…
__Tá legal, chega dessa babaquice! - ele se desvencilha dela e veste o paletó - Acho um saco isso, tá ligado! Tem coisa mais cafona do que festa de casamento?!
__Meu amor, quando se casar vai pensar bem diferente, viu!
__Um saco essa roupa ridícula, um saco essa festa brega!
__Meu amor, também não é assim…! Você vai se divertir muito! - ela se aproxima, tentando ajeitar a gravata dele mais uma vez, sem sucesso…
__Divertir?! Numa festa de velhos?! Como?! - ele se afasta dela, muiiito irritado…
__Não exagera, querido! Muitos dos seus amigos vão à festa…
__Uns otários, isso sim!
__Calma, Marquito…! Você tá exagerando, querido…!
    Ele caminha até a porta, praticamente arranca a gravata, joga no chão e olha para Valentina.
__Quer saber? Eu não vou nesse circo idiota! Tô fora!
__Marquito, calma…
    E ele sai, batendo a porta com força. Valentina suspira.
__Ah, adolescentes…!
    E ela que parou de se arrumar para ajudar o sobrinho! Tudo bem, ela entende. Adolescente é assim mesmo!… Melhor voltar pro seu quarto e terminar de se vestir. Precisa chegar cedo à Maison e só tem uma hora pra se arrumar! Está ansiosa, feliz, nervosa, triste, tudo misturado… Queria muito que seus pais estivessem ao seu lado agora… De repente, uma sensação de angústia e medo enche seu coração… Ah, que bobagem é essa agora?… Hoje não é dia de tristeza ou medo. Hoje é dia de alegria e realização! Valentina entra no quarto e vê Otávio sentado no sofá, o terno sobre a cama…
__Meu amor, não vai se arrumar?!
__Não. Não vai ter festa, Valentina.
__O quê? Querido, assim vamos nos atrasar…!
__Não vai ter droga de festa nenhuma, Valentina!
__O quê…? - ela não está entendendo nada…!
__Eu quero o divórcio.
    Valentina arregala os olhos, sem entender muito bem o que ele diz… É uma brincadeira, claro!… Não, Otávio não é do tipo brincalhão…
__Não entendi… É uma brincadeira, uma piada…? - ela continua parada junto à porta olhando fixamente para o marido…
__Não, Valentina. Não é uma brincadeira. quero o divórcio. Quero me separar de você. - a voz dele está firme, tranquila…
__Não entendi… O quê?
    Otávio se levanta, anda até a cama, pega o terno da festa, dobra cuidadosamente e coloca dentro de um saco. Então, se volta para ela e diz:
__Divórcio, Valentina. Eu quero o divórcio.
__Mas… Hoje é nosso aniversário de casamento, Otávio… Temos uma festa e… - de repente, é como se sua cabeça se abrisse e a realidade das palavras de Otávio entrassem como um raio… - Mas porquê? Quer o divórcio… Como assim quer o divórcio, Otávio?!? O que tá acontecendo?!
__Não quero mais estar casado com você. Já fiquei tempo demais nessa palhaçada…! Já aturei tempo demais esse fardo! - ele fala num tom baixo, mas carregado de rancor, desprezo e arrogância… - Cansei disso. Cansei de aturar uma mulherzinha inexpressiva e limitada como você! Cansei de ser o “bom marido”, o cara que sempre sorri e aceita ter uma esposa fútil, inútil e burra!

Capítulo 11

__O quê você tá falando?!? Que conversa é essa, Otávio?! Que brincadeira mais sem graça, querido! - ela sorri, mas com lágrimas nos olhos, se aproximando dele para abraçá-lo - Brincadeira boba, Otávio…!
    Otávio a empurra, com uma expressão de nojo no rosto.
__Me solta, mulher! Você ouviu o que eu disse?! Entendeu o que eu disse, Valentina? EU QUERO O DIVÓRCIO! - ele grita - DIVÓRCIO! Não quero mais estar casado com você, sua imbecil fútil! Eu cansei de ser o marido da maluquinha Valentina Rossi, cansei de passar vergonha com uma mulher que só pensa em fazer as unhas e ir ao shopping! Você é uma piada, Valentina.
    Ela ouve cada palavra, entre um soluço e outro, com os sentimentos confusos, ora cheia de raiva, ora com tristeza, humilhação, dor… Não reconhece esse homem. Não é o seu marido.
__Vinte anos… São vinte anos, Otávio. - sua voz sai fraca, trêmula pelo choro… - Nosso casamento sempre foi feliz, harmonioso, quase perfeito… A gente se ama, Otávio.
__Não, eu não te amo. - friamente dito, com um sorrisinho indecifrável nos lábios.. - Nunca te amei. E não era um casamento feliz, quase perfeito. Era uma farsa. Um fardo que eu venho carregando por vinte anos.
__Isso não é verdade! Não era uma… Não é uma farsa! Sempre fomos felizes, Otávio. E não acredito que não me ame. Eu não sei o que tá acontecendo, se é uma crise que você tá passando ou… Mas tá tudo bem, vamos superar juntos, querido. - ela se aproxima dele e mais uma vez é empurrada…
__Que crise coisa nenhuma! E eu lá sou homem dessas frescuras?! Não tem mais festa, não tem mais casamento! - ele abre o armário, pega uma mala e joga sobre a cama. - Tô indo pro hotel. Amanhã a gente termina essa conversa.
__Como assim, hotel?… E a festa, os convidados, os nossos votos…?
Otávio sorri enquanto tira alguns objetos pessoais de uma gaveta numa cômoda.
__Você é mais burra do que eu pensava!…
__Quer parar com isso, Otávio?! Eu não tô entendendo nada do que tá acontecendo, caramba! Que estória é essa de divórcio no dia das nossas bodas? Que coisa mais sem sentido! - ela anda de um lado para o outro do quarto, fala com a voz ainda trêmula e muito baixa, a cabeça a mil por hora… - Isso é uma pegadinha, é? Não tem graça nenhuma, não tem graça!
__Para com esses chiliques, Valentina! Você entendeu muito bem o que eu disse! Ou então é mais alienada do que eu sempre achei! - coloca os objetos rapidamente dentro da mala vai até a porta e diz: - O casamento acabou, tudo acabou. Inclusive a maldita festa!
    E abre a porta, saindo antes que ela possa dizer alguma coisa…

Capítulo 12

    E ela continuou ali, parada, muda, as lágrimas caindo pelo rosto… Não sabia direito o que estava acontecendo, se era um sonho, se estava tendo um surto psicológico ou o quê… Valentina olha em volta, depois de longo tempo parada, e se dá conta de que tem uma festa pra ir. Ah, sim… a festa. As lágrimas continuam caindo e ela ainda parada, sem conseguir ordenar os pensamentos na cabeça. Meu Deus, o quê está acontecendo?!… Otávio quer o divórcio… Mas porquê? Qual o motivo?! O que foi que provocou essa reação nele?… O que foi que ela fez? Ou não fez? Seu corpo treme, a cabeça gira e ela quase cai no meio do quarto.
    Isso é um pesadelo, com certeza…! Sim, é um pesadelo, logo logo irá acordar e tudo estará como sempre esteve, tudo normal…! Dá um sorrisinho e enxuga as lágrimas, anda tropegamente até a cama e deita. Sim, sim, quando acordar vai estar tudo bem, tudo como sempre esteve…
******************************************************************
    Ah, que pesadelo horrível…! Valentina dá um salto da cama, olha em volta e lembra que precisa terminar de se arrumar para a festa. Por falar nisso, onde está o Otávio? Ele também precisa se arrumar, falar com os empregados, ligar pra Maison… Começa a se vestir, ajeita os cabelos e sorri diante do espelho. Nossa, precisa dar uma retocada na maquiagem! Seus olhos estão vermelhos e inchados, parece até que chorou… E aí, de repente, ela lembra.
Não foi um pesadelo. Foi real. Otávio pediu o divórcio, com uma conversa horrível, cheia de mágoa, revolta, humilhação… Ele foi embora. Valentina estremece de novo, pega o celular com a mão trêmula…
__Theodora, onde você está? - ela diz com uma voz sumida assim que a irmã atende o telefone.
__Eu é que pergunto: onde você está? Os convidados já estão chegando aqui, Valentina!
__Tá na Maison? Você tá na Maison, Theodora?…
__Sim, eu tô na Maison. E você também já deveria estar aqui!
__Theodora, cadê o Otávio? Ele tá aí?
__Não, ele não tá… Valentina, vocês vêm juntos! O que tá acontecendo, criatura?
__Meu Deus… então ele foi mesmo embora…
__Val, o que foi que houve?
__Theodora, o Otávio pediu o divórcio.
    Um breve mas significativo silêncio. Então Theodora dá uma risada e diz:
__Você bebeu, minha irmã?!
__Eu tô falando sério, Theodora! - ela quase grita, em desespero - Ele fez uma mala e foi embora. Quer o divórcio! Disse isso assim, friamente, sem uma explicação! disse na minha cara que quer o divórcio… Justamente hoje, no dia da nossa festa de aniversário de casamento! - ela levanta e anda de um lado pro outro do quarto, as lágrimas caindo pelo rosto e estragando toda a maquiagem… - como ele pode fazer isso comigo?! Eu não sei porque ele tá fazendo isso comigo, Theodora…! E a festa, os convidados, nossos amigos…? O quê que eu faço, Theodora? O que vou dizer pros convidados…?
__Quer parar de dar chilique e ficar calma?!? Não se preocupe com a festa. Eu resolvo tudo por aqui. Quando eu chegar, a gente conversa melhor. Fica calma, Valentina. Já chego aí.
    Ela desliga o celular e se deixa cair num sofá, chorando convulsivamente…

Capítulo 13

__Valentina! Valentina, acorda!
    Ela sente um solavanco e arregala os olhos, assustada. Theodora está diante dela, ainda com a roupa da festa e parece muito tranquila… Ah, mas Valentina não está tranquila! Está confusa, aflita, incrédula, assustada… Um turbilhão de emoções e nenhuma reação, é isso que acontece com ela…! Encara a irmã e não consegue dizer uma palavra.
__O quê aconteceu, Valentina? - pergunta Theodora, sentando ao lado dela, absolutamente calma, serena… - Cadê o Otávio? Os empregados disseram que ele saiu pelos fundos com uma mala… Ouviram gritos… Vocês brigaram?
__Ele pediu o divórcio. - a sua voz sai num fio, algumas lágrimas rolam pelo rosto… - No dia da nossa festa de aniversário de casamento… Disse coisas horríveis, foi agressivo e grosseiro… Ele disse que quer o divórcio. O divórcio…! Mas eu não sei o porquê disso, Theodora…! Eu… Eu… Eu não consigo entender…! - enxuga as lágrimas, as mãos trêmulas e frias… - Como ele pôde fazer isso comigo justamente hoje?! É nosso aniversário de casamento! Vinte anos de casamento… Esperou pra dizer que quer a separação justo hoje?!?
__Calma, Val. - Theodora segura a mão dela - Olha, eu já suspeitava que isso iria acontecer um dia…
__O quê?… Como suspeitava…?
__Valentina, esse seu casamento… - ela respira fundo, levanta e anda devagar pelo quarto -     Acho que o seu comportamento… Você parece ter saído de uma daquelas novelas de época, onde as mulheres não podiam trabalhar ou estudar, ficavam "presas" em casa e obedeciam cegamente o marido…! Você é como um bibelô, minha irmã! - e sorri ao dizer isso - Algo bonito, delicado, dentro de uma redoma de vidro, mas que não tem utilidade alguma, não serve para absolutamente nada além de enfeitar a casa!
Valentina está chocada com o que ouve. Então é isso que sua irmã pensa dela…! Isso é horrível…
__Vive para a casa, o marido e pra todas essas futilidades de que tanto gosta!… - e Theodora dá uma risada - Isso é casamento que se apresente?! Isso é vida que se apresente?! Sinceramente, minha irmã, até que durou muito esse casamento! Eu no lugar dele já teria metido o pé faz tempo! - e volta a sentar ao lado de Valentina - O que você é, Valentina?… Você é uma mulher fútil, imatura, antiquada, com a sorte de ter uma conta bancária extraordinária…! Uma dondoca, como se dizia antigamente. E ainda pergunta porquê ele quer o divórcio?
    Valentina não acredita que sua própria irmã esteja dizendo essas coisas tão duras…! Olha para Theodora e não acredita que ela pense realmente isso!
__Otávio nunca exigiu nada de mim. - Valentina consegue dizer, já com a voz mais forte e o coração mais calmo… - Ele nunca exigiu que eu trabalhasse fora ou que ficasse em casa. Ele deixou que eu decidisse. E eu decidi ficar em casa, cuidar da nossa casa, cuidar das nossas coisas, cuidar dele…
__Ah, sim, claro! e foi bem cômodo pra você, né? E mais cômodo ainda pra ele!
__Theodora…
__Bem fácil, ficar em casa, "cuidar das nossas coisas, cuidara dele"…!Acha que todos os homens gostam desse tipo "mulherzinha" que você é?! Os tempos mudaram, Valentina! Você não percebeu isso? Essa coisa de cuidar da casa, do marido e com um sorriso de satisfação e orgulho nos lábios já era! E quer saber? O Otávio tá muito certo em querer o divórcio! Se eu fosse ele e estivesse casado com você por vinte anos… - ela encara Valentina com um olhar enigmático… - Eu também me separaria. Você é tão… sem graça, sem sal e sem açúcar, minha irmã! Não sei como conseguiu prender um homem como Otávio por tanto tempo…!
__Theodora… Porque tá falando assim comigo? - ela parece flutuar em meio às próprias palavras… - Eu preciso de apoio e não de…
__Você precisa acordar pra realidade, isso sim! Eu tô apenas dizendo a verdade, Valentina. - ela caminha até a porta - Seu casamento já era. E há muito tempo.
__Theodora… O que eu faço agora?…
__Dorme. Toma um banho, põe uma camisola leve, apaga as luzes e dome. - abre a porta - É o que eu vou fazer também.
__Mas… eu não quero dormir… Quero…
__Boa noite, Valentina. Amanhã é outro dia, minha irmã.
    E Theodora sai, deixando Valentina ainda mais angustiada e confusa… Não esperava essa reação de sua irmã! Pensou que Theodora fosse apoiá-la, entendê-la, buscar soluções para o problema… Mas ao contrário, ela foi fria, dura, indiferente…!
Valentina suspira, olha em volta e acaba fazendo o que Theodora disse: toma um banho, põe a camisola, deita e fecha os olhos. Só não consegue dormir.

Capítulo 14

    Uma batida leve na porta a desperta. Apesar de ter dormido muito mal, Valentina acorda bem. Sim, ela sabe perfeitamente o que aconteceu ontem… Precisa encarar a situação, seja ela qual for. Mas seu corção está angustiado, heio de incertezas, de medos… Ainda é dfícil acreditar no que Otávio fez…! Ela levanta, depois da segunda batida na porta.
__Bom dia, d. Valentina. - diz Sílvia, com um sorriso delicado nos lábios e uma bandeja com o café da manhã nas mãos - Trouxe seu café…
__Bom dia, Sílvia. Obrigada, querida. - ela segura a bandeja e sorri também.
__A senhora tá bem? - pergunta Sílvia.
__Sim, estou bem, obrigada.
__Se precisar de alguma coisa, é só falar, tá?
__Tudo bem, Sílvia. Eu vou tomar o café e já desço.
    A empregada sorri, meio sem jeito e sai do quarto. Valentina suspira e coloca a bandeja sobre a cômoda. Não está com fome. Só pensa nas palavras de Otávio, na situação humilhante que ele a fez passar… Pensa na reação dos convidados quando souberam que não haveria mais festa… E pensa nos motivos de Otávio paa fazer todo esse estrago na vida deles.
Difícil entender! Ele nunca se queixou de nada! E eles nunca discutiram, nem uma briguinha sequer…! O casamento sempre foi tranquilo, apesar de passarem pouco tempo juntos por conta do trabalho de Otávio. Ah, ele estava sempre muito ocupado… E ela era sempre muito compreensiva... Talvez seja essa a questão. Compreensão demais, tempo de menos…

Capítulo 15

    "Foi uma surpresa para todos, sem dúvida alguma. A festa de vinte anos de casamento de Otávio Montenegro e Valentina Rossi não aconteceu… Um imprevisto fez com que o casal cancelasse a festa praticamente em cima da hora. Lamentável, pois não sabemos o que realmente aconteceu. Esperamos que tudo se resolva o mais rápido possível… E que nossos queridos amigos possam comemorar suas bodas como bem merecem!"
    O artigo na coluna social do jornal até que foi discreto, quase gentil. Mas é claro que logo todos saberão o que aconteceu e quando a notícia se espalhar, será o caos!… Valentina respira fundo, põe o jornal sobre a cama e caminha vagarosamente até a porta. Não está com disposição para enfrentar a família…! Não está com disposição para nada. Mas precisa sair do quarto e tentar dar uma explicação á sua família.
    Theodora e Marcos estão na varanda, a mesinha cheia de jornais, o notebook ligado num telejornal… Nem precisa dizer qual é o destaque da reportagem…
__Parabéns, Val! - diz Marcos, batendo palmas calorosamente - Você ganhou o prêmio "mico do ano"!
__Cala a boca, garoto! - grita Theodora - Isso não é hora pras suas gracinhas!
__Tudo bem, Theodora. Ele tá certo. - Valentina senta ao lado da irmã e dá um sorrisinho pro sobrinho - Você disse bem, Marquito: "mico do ano"…!
__E cadê o Otávio, hein?… - pergunta Marcos.
__Eu não sei. Não sei mais nada… - ela suspira, fecha os olhos, pensando em como tudo isso pôde acontecer… - Queria que ele me explicasse, que me desse pelo menos um motivo pra tudo isso…!
__ Eu acho que ele vai aparecer, Val. - diz Theodora enquanto folheia um jornal - Porque não é só sair de casa e pedir o divórcio… Existem outras questões envolvidas.
__Que outras questões?…
__Questões legais, Valentina. - Theodora sorri, muito meiga, o que não combina muito com sua personalidade… - Otávio é um homem de negócios, lembra?…
    Valentina arregala os olhos, um tanto chocada. Não tinha pensado nisso, não tinha visto por esse ângulo… Só pensa em seu casamento, na tristeza profunda que sente, na humilhação que passou. Para ela, isso é o mais importante. Questões legais. Que seja.
__Eu preciso de uma explicação, Theodora! Preciso saber o que aconteceu, onde erramos, o que temos de fazer pra melhorar nosso casamento…! Isso é importante. A vergonha… Eu quero saber o que está acontecendo, Theodora! Ele precisa me explicar! - há uma certa agonia em suas palavras, as lágrimas caem pelo seu rosto…
__Aí, na boa: tu é uma figura, Val! Pra quê todo esse mímimi?!? O Otávio caiu fora mesmo! E quer saber? Demorou!
__Cala essa boca, garoto! - Theodora grita de novo, dando um murro sobre a mesa - Não se mete nisso!
__Eu preciso saber o que houve de verdade… - Valentina murmura, com um suspiro.
__Sei não… Pode ter outra mulher na parada… - diz Marcos, agora sim parece falar sério…
__Ainda tá aqui, garoto?! - Theodora está irritada - Vai pra escola, Marcos! E nem uma palavra sobre esse assunto, hein!
    O rapaz dá um sorrisinho antes de levantar da mesa.
__Tranquilo. Esse papo tá muito brabo mesmo! Fui!
Theodora se volta para Valentina e sorri. Segura a mão da irmã e fala num tom surpreendentemente calmo:
__Tudo vai se resolver, Valentina. Só precisa ficar calma.
__Eu não quero ficar calma! Eu quero respostas, Theodora! Quero que o Otávio diga o que tá acontecendo! Eu não sei o que aconteceu, não sei o que foi que eu fiz pra ele ter essa atitude louca…!
__Talvez seja o que você não fez, Val.
__Como assim?
__Ah, minha irmã! Você é muito "mulherzinha", muito meiguinha, muito burrinha! Alguns homens não gostam disso. - ela volta a ler um jornal, como se tivesse dito a coisa mais normal do mundo…
__Burra… É o que ele pensa que eu sou…?
__Não sei o que o Otávio pensa, Valentina. Mas você sempre foi meio burra, né?… Tipo "não sabe nada, não se liga em nada, acha tudo lindo e maravilhoso ", que acaba enchendo o saco de qualquer um! Doce demais, florzinha demais, muito boazinha demais! - Theodora larga o jornal e encara a irmã - Apagada, quase invisível, Valentina! Olha, eu não faço ideia dos motivos do Otávio pra querer se divorciar de você… Mas talvez você tenha contribuído pro fim do seu casamento.
    Valentina não diz nada. Todos parecem ver algo que ela nunca viu… De um ângulo que ela nunca pensou… Que loucura!… Será que é isso mesmo? Será que contribuiu para que as coisas chegassem à esse ponto?…

Capítulo 16

    Antonio entra em casa, sentindo um peso nas costas… Está ultra cansado, trabalhou demais! Mas o pior mesmo foi que a festa não aconteceu… Tanto trabalho para nada! Todos os garçons foram dispensados por Theodora, pouco antes dos primeiros convidados chegarem à Maison. O que teria acontecido? Bem, ele não está muito interessado nisso. 
 Tem preocupações muito mais sérias em sua vida, neste momento… Maura, como sempre, sumiu na poeira, largando tudo sobre os ombros dele… Incrível como Maura consegue sair de cena sempre nos momentos mais complicados!… Mais uma vez, ela caiu fora… Ele abre a porta do quarto e logo vê o papel preso com fita crepe na parede:
“FUI TRABALHAR, NÃO SEI QUANDO VOLTO.
CUIDA DAS CRIANÇAS E DA CASA.
MAURA.”
    Que maravilha! Sem dia pra voltar…! Essa foi pra fechar com chave de ouro o seu dia…! Antonio está preocupado com Tiago, que precisou extrair o dente, mas ainda tem outro muito inflamado e terá de voltar ao dentista semana que vem. Seus filhos precisam de atenção e cuidados, ele sabe. Quem não parece entender isso é Maura. Sim, eles já são crescidinhos, estão entrando na adolescência, mas precisam dos pais ainda… E Antonio faz o que pode, se vira em mil para dar aos filhos o melhor possível. Não é fácil, não mesmo!
    Ele suspira, pensando por quanto tempo mais irá aguentar isso… Talvez esse casamento ainda esteja de pé por causa dos filhos. Pelo menos da parte de Antonio, sim. Bem, ele não está se sacrificando e tal, mas sabe que existem coisas mal resolvidas e que provavelmente nunca se resolverão em seu casamento… No entanto, ele quer tentar, quer mudar esse estado de coisas…! Maura não parece disposta a mudar, a tentar salvar o casamento, a relação de tantos anos… Ela parece mais interessada em salvar a própria pele…
__O Tiago tá, querido. - a voz de Silvia bem atrás dele o tira de seus pensamentos - E você, como tá?
__Bem, eu acho. Ela vai ficar uns dias fora…
Silvia dá um sorriso e abraça Antonio carinhosamente.
__Uns dias… Já olhou dentro dos armários, meu filho?…
__O quê…?
__Abre o armário, Antonio.
    E ele foi abrir mesmo. Ah, meu Deus… Maura levou todas as suas roupas…! Antonio olha para a tia meio aturdido…
__Cadê as roupas?…
__Ela levou, ora! Levou tudo: roupa, documento, sapato, objetos pessoais… Tudo! Até dinheiro a infeliz levou!
    Antonio anda pelo quarto, depois senta na beira da cama, põe as mãos na cabeça e suspira profundamente… Que loucura é essa, meu Deus?! Então Maura decidiu ir embora, assim sem mais nem menos, sem conversar com ele, sem uma explicação nem nada?!?
__Ah, não fica assim, querido… - Silvia se aproxima e senta ao lado dele - Você sabia que um dia isso ia acontecer, meu filho…! Até que demorou, né!
__Como assim demorou, tia?! Ela não pode fazer isso não! E não tô falando por minha causa não. Tô falando por causa das crianças. Caramba, a gente tem filhos, tem essa responsabilidade com eles…! Ela não pode simplesmente pegar as coisas e ir embora de casa! - ele diz com uma voz calma, apesar de se sentir arrasado por dentro… - O que diabos deu nessa mulher, tia?!?
__Ah, meu querido, essa sua esposa sempre foi meio louca…! A Maura não nasceu pra essa vida de casado, de cuidar da casa, dos filhos, do marido…! Ela não nasceu pra essa vida simples, Antonio! E ela nunca escondeu isso, hein! Essa vagabunda sempre pensou em te largar, meu filho… Só não sei porque ela resolveu fazer isso agora, depois de tantos anos…!
    Antonio levanta, respira fundo e vai para a sala.
__O quê que eu vou dizer pras crianças?
__A verdade, caramba! Eles já são crescidos, Antonio. Você acha que eles não sabem de nada que acontece? Eles sabem sim! Fala a verdade, meu filho. Não tenha medo não.
__Pode ser que ela volte… Pode ser que fique só mais uns dias fora e depois volte…
__E levou tudo que era dela pra quê? Levou tudo, pra ficar uns dias no tal trabalho em Caxias?! Você acredita mesmo nisso, Antonio?

Capítulo 17

    Antonio nem sabe mais no que acreditar. Sabe apenas que vai ser dureza para os filhos, quando souberem que a mãe foi embora… Talvez dessa vez pra sempre. Pode ser que aceitem numa boa, como também pode ser que fiquem arrasados. Antonio está arrasado! Lá no fundo ele sabia que um dia iria acontecer, mas nunca deu atenção, nunca acreditou que Maura fosse capaz… Quando Tiago e Laura chegaram em casa, ele não disse nada. 
 Amanhã, vai conversar com eles. De certa forma a estória do dente de Tiago ajudou, pois ficaram focados nisso e nem perguntaram pela mãe. Antonio não consegue dormir, se revira na cama, pensando na atitude de Maura… Sim, talvez eles não tenham um casamento perfeito, as coisas não tenham dado muito certo pra eles como casal, mas isso não justifica a irresponsabilidade de Maura com os filhos.
    Se queria se separar, dar outro rumo pra sua vida, tinha que sentar e conversar com Antonio, esclarecer as coisas!… E ser mais responsável em relação aos filhos. Maura sempre sonhou muito alto, sempre querendo o que é caro, o que é luxo, o que é status…! Querendo e querendo coisas que estão muito distantes da vida de um casal pobre do subúrbio do Rio de Janeiro…! Antonio acreditou, lá no início, que ela se modificaria e acabaria se adaptando… Engano seu. Ela foi se tornando cada vez mais e mais amarga, reclamando, praguejando, humilhando e ofendendo…! Até se transformar nessa mulher que, agora ele percebe, mal conhece. Passou a noite quase toda em claro, preocupado com a reação dos filhos, tentando encontrar as palavras certas para dar a notícia à eles. Só dormiu quando já estava amanhecendo, mesmo assim muito pouco. Levanta, vai pra cozinha fazer o café enquanto Laura liga a televisão na sala.
__Caramba, pai! Vem aqui ver isso! - grita a garota.
    Antonio aparece na porta da sala sem entender o motivo de tanta euforia…
__Ver o quê?
__Olha lá! Não é a dona da Maison Rossi onde você trabalha?
    A reportagem na televisão mostra Theodora Rossi dando uma entrevista.
__Agora ela já está bem, mais calma. Ainda não tivemos notícias de Otávio, mas acredito que logo ele aparecerá. Nós estamos muito abalados, foi um choque, uma surpresa terrível…! Espero que tudo se resolva bem e que minha irmã consiga superar a separação.
Separação? Então foi por isso que não teve festa…! Que triste!
__Caraca, deu ruim pra madame! - Laura ri, um tanto divertida com a situação - O marido dela foi embora no meio da festa e ela ficou com cara de bunda!
__Quer parar com isso, Laura? Isso não é piada, não tem graça nenhuma! É coisa séria, filha.
__Ah, qual é, pai! Esse pessoal rico vive casando e descasando toda hora! Daqui a pouco ela já tá com outro e o cara com outra também!
    Antonio desliga a televisão, meio irritado.
__Vai tomar o café. Chega de televisão!
__Eu quero ver o jornal, pai! Só falam disso na internet, na televisão…!
__Café da manhã, mocinha! E vai cuidar de estudar, que é bem melhor!
__Caramba, pai… O Tiago ainda tá dormindo, vai lá acordar ele, vai!
__Teu irmão precisa descansar, Laura.
__Descansar?! Só porque tirou um dente?!?
__Vai tomar teu café, Laura! - ele quase grita, está muito aflito, irritado, sem saber direito como agir… - Eu quero conversar sério com vocês dois… Quando teu irmão acordar a gente conversa, tá?
__Ih, lá vem bomba! O que foi agora, pai?
__Depois a gente conversa, Laura. Eu vou tomar um banho enquanto isso.
__Todo misterioso… Deve ser uma bomba atômica!

Capítulo 18

    Tiago mexe no celular enquanto Laura penteia os cabelos. Bem diante deles está Antonio, muito sério, aparentemente calmo, embora por dentro esteja um turbilhão de emoções… Ele olha para os filhos, ainda sem saber como começar a conversa, sem saber o que dizer pra eles… Está complicado mesmo! Ah, Maura não podia ter feito isso com ele!… Mas quando ela voltar, ele vai… Ela não vai voltar. Antonio respira fundo, se aproxima dos filhos e diz:
__Crianças, eu preciso ter uma conversa séria com vocês.
__Agora?! Caramba, pai! Eu tô com dor, sabia?! Quero voltar pro quarto! - diz Tiago, num resmungo.
__Nossa, que sinistro, pai!… - Laura estranha, já que o pai está mais sério do que o de costume…
__Eu quero falar umas coisas importantes… - ele esfrega as mãos, nervosamente - É muito sério e importante. Sentem, crianças.
__Caraca, o quê que tá rolando, hein?!? - a impaciência de Tiago é grande…
__Não é uma coisa boa… Na verdade é uma coisa bem chata, bem triste…
__Pai, fala logo! O quê aconteceu? Você perdeu o emprego?
__Você tá doente, é isso?
__Não, não é nada disso. É que… A sua mãe arrumou um trabalho em Caxias e…
__Ah, a gente tá sabendo, pai! Ela vai ficar uns dias fora. - fala Laura.
__Bem, não vai ser uns dias… Ela vai ficar muito tempo longe de vocês.
__Nossa, sério isso?!
__Muito tempo tipo quanto tempo?
    Antonio segura as mãos dos filhos carinhoso…
__Ela levou todas as roupas, todas as suas coisas… Talvez ela não volte mais.
    Agora sim Tiago e Laura prestam atenção! E olham para o pai entre assustados e incrédulos…
__Porquê? - pergunta Tiago.
__Eu não sei.
__Vocês brigaram de novo, pai?
__Não, claro que não.
__Então porquê ela foi embora?
__Eu não sei, filho.
__Vocês brigavam o tempo todo, sempre a mãe ficava com raiva, xingava, depois ia embora…! Vocês sempre brigando, discutindo, a mãe gritando e você fazendo cara de paisagem…! Acha que a gente não sabe que a mãe tá bolada contigo faz tempo?… - Tiago está revoltado, levanta num rompante e anda pela sala - Ela vive reclamando da vida, de você, o tempo todo…!!! Ela não tava feliz, sabia?!? Ela não tava feliz com você!!
__Eu também não tava feliz! - ele grita.

Capítulo 19

    O espanto nos olhos de Tiago e Laura, deixa Antonio sem jeito. Ele respira fundo,esfrega as mãos e encara os filhos antes de dizer:
__Eu sinto muito, crianças. Mas a verdade é que Maura queria uma coisa da vida e eu queria outra… A nossa vida sempre foi complicada, cheia de altos e baixos…! Só que quem mais complicou a nossa vida foi a Maura. Sei lá, esse jeito dela, essa mania de grandeza, sempre atrapalhou tudo! - ele suspira e faz uma pausa pra ver a reação deles…
    Tiago e Laura estão quietos, muito sérios, encarando o pai como se fosse um estranho… E Antonio não sabe se isso é bom ou ruim.
__Ela foi embora mesmo… Acho que não vai voltar mais. Mas não foi por sua causa, filhos. Foi por minha causa. - ele dá um sorrisinho sem graça - Acho que não fui um bom marido…! Pelo menos não o marido que ela queria que eu fosse. Mas isso não tem nada a ver com vocês, crianças. Nada mesmo! É coisa de marido e mulher, sabe?… - agora ele fica sério, com um nó na garganta… - Ninguém tem culpa, essas coisas acontecem na vida dos casais… Vocês estão entendendo o que eu tô dizendo, filhos?
__A mãe vai voltar. - diz Tiago, sério e um tanto frio - Ela sempre volta. Vocês brigam, gritam um com o outro e depois ela some um tempo… E aí depois ela volta. E fica tudo bem de novo.
__Ela levou as roupas todas…! - a voz de Laura é quase inaudível, ela está muito emocionada… - Não sei se ela volta dessa vez… Tomara que sim. Eu não quero que vocês se separem! A mãe é geniosa, mas ela te ama, pai.
    Tiago dá uma risada.
__Para com isso, Laura! Você sabe que a parada entre eles acabou! A mãe cansou, tá ligada? - ele olha para Antonio desafiador - E acho que você também cansou.
    Antonio está sem jeito diante dos filhos. Nunca em sua vida pensou que um dia teria esse tipo de conversa com seus filhos…! E também está surpreso com a reação deles… Enquanto Laura parece triste, mas com um fio de esperança de que as coisas vão melhorar entre os pais, Tiago está visivelmente revoltado, mas acreditando que a mãe vai voltar, apesar de entender que o casamento dos pais acabou… Isso é totalmente inesperado e novo para Antonio…! Não sabe o que dizer, como se explicar para os filhos! Afinal, eles não são mais crianças, já entendem alguma coisa da vida… Ele passa as mãos pelos cabelos, pensando no que dizer.
__Eu acho que a mãe de vocês não vai voltar. E eu não sei se quero que ela volte. Ainda não sei. O Tiago tá certo, eu também cansei. Faz tempo que cansei. A gente já não dá mais certo como casal, sabe?… E depois, ela deve ter outros planos, vai seguir com a vida dela… Do jeito que ela acha que deve ser. E eu vou seguir com a minha também. Mas vocês são nossos filhos, vão ser prá sempre. Eu continuo sendo seu pai e ela continua sendo sua mãe. Isso não vai mudar. Só que eu acho meio cedo pra dizer qualquer coisa… Não tenho certeza de nada, não sei de nada ainda!… Só sei que a Maura foi embora sem ao menos dar uma palavra com vocês. Espero que ela apareça pra conversar com vocês.
__Conversar o quê?! Pra mim tá tudo dito, pai! Levou as roupas todas, então é pra sempre?!? Ela sempre faz isso, sempre some um tempão e depois volta como se nada tivesse acontecido! Some quando fica bolada contigo e aí volta de novo! Se ela não voltar dessa vez… - Tiago se empertiga, parece realmente desafiar o pai… - Eu vou com ela. Não quero ficar com você.
    Ah, isso sim é choque! Antonio não acredita no que ouve…!
__ Filho, como assim, vai com ela?!
__Eu vou com a minha mãe. Não quero ficar com você!
__Vai nada, seu merdinha! - a voz de Sílvia bem atrás deles…
    Ela está parada na porta, com as mãos na cintura e muito zangada…
__Se a infeliz da sua mãe quisesse que você fosse, teria te levado, seu merdinha! - vai entrando com o dedo em riste, furiosa… - Ela quer ficar livre pra viver a vida dela! Vocês são um empecilho pra ela! E você também, Antonio! Você sempre foi um babaca, meu filho! Aturando as maluquices dessa mulher por tantos anos…! Um babaca e um santo também…!
__Eu não quero ficar com o pai! Quero ir embora, tia! Quero ficar com a minha mãe! Acha que ela tá pirada assim porquê?! Por causa do pai, é claro! - Tiago anda pela sala, revoltado… - Ele nunca deu atenção pra ela, só pensando na vidinha boba dele! Eu tô sabendo das coisas,tia! A quer uma vida melhor pra gente… Com coisas boas, mais grana, roupas boas, essas coisas que todo mundo tem…! Isso é crime, por acaso?! Querer melhorar na vida é crime?!?
__Para de falar bobagem, Tiago! - agora Laura parece mais calma e até um pouco indignada… - A mãe foi embora porque quis! Ela não pirou por causa do pai não! Ela pirou por causa da mania de grandeza, de querer o que não dá pra ter…! E botava a culpa nos outros! Eu também sei das coisas, viu! O pai não tem culpa e a mãe não é pirada, Tiago.
__Por favor, crianças! Muitos casais se separam. Acontece, só isso. - diz Antonio, já aflito com o rumo dessa conversa… A culpa não é de ninguém! Eu não queria que vocês passassem por isso… Mas não tem outro jeito. Eu… Não quero que você fique com raiva de mim, filho. E não sei se é uma boa ideia vocês ficarem com sua mãe…
__Até porque, ela não quer ficar com vocês. - arremata Sílvia.
__Mas isso a gente não sabe ainda, né, tia Sílvia?… -fala Antonio - Vamos conversar depois sobre isso com calma. Por enquanto, eu quero que vocês entendam o que tá acontecendo. Depois, a gente vê o resto. Tudo bem?
__Tá bom, pai. -Laura dá um sorrisinho e abraça o pai - A gente entendeu. É muito triste,eu não queria que vocês se separassem, mas também não quero ver os dois brigando o tempo todo!…
__Pra mim não tá legal não. Mas quando a mãe voltar, vai explicar tudo e vai levar a gente. Se ela resolveu pular fora, eu entendo.
__Vocês são crianças, caramba! Criança não dá palpite em vida de adulto! Vão fazer o que o pai de vocês mandar! - Sílvia tenta cortar o assunto, para evitar maiores discussões…
__Bom, eu tenho que trabalhar agora. Parece que tá acontecendo uns problemas lá na Maison… A tia Sílvia vai cuidar de vocês hoje.
    E dizendo assim, ele sai bem depressa, muito angustiado. O que vai acontecer daqui para frente? Como vai ser sem a Maura?… Sim, ela sempre some por um tempo, mas depois volta… Só que agora talvez não volte. Como vai ser, então?… Ele não sabe. Só sabe que seus filhos estão sofrendo muito… Cada um à sua maneira, mas estão sofrendo. Isso ele não perdoa Maura.

Capítulo 20

    O tempo. O tempo resolve tudo. Ou quase tudo. Antonio foi trabalhar nos dias que se seguiram com o coração apertado, muito preocupado com os filhos. Seu casamento estava mesmo fadado ao fim, na verdade, desde que se conheceram… Se tivesse ouvido os conselhos da tia e até mesmo sua própria consciência, provavelmente não teria se casado com Maura. Mas ao invés disso, ele preferiu ouvir seu coração… E o resultado foi esse. A parte boa dessa relação tão complicada foram os filhos. Que Maura não queira mais viver com ele, tudo bem. Mas abandonar os filhos, isso não…! Isso ele não aceita! Tentou falar com Maura várias vezes esses dias, mas ela desligou o celular. E também não sabe onde ela está realmente, se em Caxias ou em outro lugar qualquer…
    De qualquer maneira, as coisas vão mudar. Já estão mudando dentro dele… Aquele amor todo que ele sentia, que parecia tão intenso e bom, começa a se desvanecer, como uma vela que se apaga lentamente… E sabe o que é mais incrível? Antonio não está um pouco surpreso com isso. O que ele sente é quase um alívio…! Ah, isso mesmo, um grande alívio por finalmente o tormento ter acabado! Horrível chegar a essa conclusão… Seu casamento foi um tormento, um desastre…!
__Como é que tá, cara? A Maura já deu notícia? - pergunta Joca, assim que ele entra na Maison.
__Até agora não. Mas as crianças estão bem. Meio tristes, mas bem.
__E você, meu amigo? Como é que tá?
__Bem, eu tô bem. Melhor do que esperava.
Joca sorri e dá um tapinha nas costas de Antonio.
__Graças à Deus, o feitiço acabou! A jararaca foi botar o veneno em outro otário!
__Para com isso, Joca! Não gosto quando fala essas bobagens!
__Meu amigo, você é um cara cem por cento, um pai nota mil! E um marido leal também…! Mas vacilou pra caramba quando casou com essa fulana! Tudo bem, a gente faz umas merdas mesmo quando tá apaixonado…! Você é muito legal, Antonio. Legal demais pra uma mulher como a Maura. - Joca está falando sério, muito sério mesmo… - Você merece coisa melhor, meu amigo!
    Antonio respira fundo. Todos esses anos, foi o conselho que mais ouviu…!
__Vamos trabalhar, Joca. Chega de conversa fiada!

Capítulo 21

    A Maison seguiu seu ritmo normal, ou seja, frenético como sempre. O escândalo da separação de Valentina e Otávio não afetou a rotina de trabalho, mas claro que os comentários rolam entre os funcionários… Antonio se alegra em não ser famoso ou da sociedade neste momento. Seus patrões estão passando por um grande constrangimento! Valentina ainda não apareceu na Maison e o dia está um tanto complicado já que Theodora viajou. Mas gente rica é assim mesmo: primeiro vem os negócios… E quanto à Otávio? Onde ele se enfiou? Essa é uma boa pergunta…! Valentina também gostaria de saber…
__A patroa acabou de chegar! - diz Joca entrando na cozinha todo esbaforido.
__E como é que ela tá? - pergunta Natália.
__Parece de boa. Tá sorrindo e falando com todo mundo, como sempre!
__Ah, ela é um doce mesmo…! Não merecia tomar um pé na bunda daquele idiota! - o comentário de Natália atiça os outros na cozinha…
__Qual é! Eu acho que foi ótimo ela ter se livrado daquele calhorda do seu Otávio! Uma pessoa super do bem como ela merece um cara melhor!
__Quer apostar como o safado tem outra?! É sempre assim, minha gente! Ele armou esse escândalo todo pra tirar o foco das merdas que fez! E de quebra ainda humilhar a dona Valentina…!
__Gente, vamos trabalhar, por favor! - pede Antonio, já meio que irritado com os comentários… - Isso não é da nossa conta, minha gente!
__Falou o perfeitinho!… - debocha Natália.
__Não sou perfeitinho, não. Mas também não sou sem noção como vocês.
__Ih, tá de mau humor hoje, é?!
__Aê: o Antonio tá certo! Vamos parar com o papo e trabalhar! - Joca se aproxima, tentando acalmar os ânimos…
__Não tô de mau humor! Tô de saco cheio da fofocada de vocês! - sim, ele está revoltado, com raiva, magoado, frustradíssimo!… - Vão cuidar da vida, trabalhar e deixem a vida dos outros em paz!
__Calma, Antonio! - Joca segura Antonio pelo braço e vai puxando-o para a porta da cozinha.
Antonio está mesmo por um triz de explodir! Essa loucura toda em sua vida… Ele que sempre foi tão calmo, tão comedido, tão gentil…! Sim, ficou muito irritado com os comentários dos colegas sobre a separação dos patrões. Porque lembrou da sua separação. Ele respira fundo, passa as mãos pelos cabelos, tentando voltar à calma…
__Foi mal, Joca. - diz, um tanto sem graça - Eu perdi a paciência… Foi mal mesmo, desculpe.- ele se volta para os amigos que agora trabalham - Desculpe aí, gente… Eu tô meio nervoso hoje… Foi mal, gente.
__Tá tranquilo, Antonio. - fala Neusa, com um sorriso - Tá todo mundo nervoso hoje! Vamos trabalhar que passa!
__Eu… eu vou dar uma volta ali fora pra esfriar a cabeça… Já volto.
__Fica calmo, meu irmão. Vai dar tudo certo!… - diz Joca, dando um tapinha nas costas do amigo.
__Valeu, Joca. - Antonio abre a porta e sai.
**********************************************************************************
    Ah, sim, hoje não está sendo um dia bom pra muita gente…! Que o diga Valentina…! Sua cabeça está a mil, fervilhando de pensamentos, a maioria sem sentido algum, as emoções mais confusas ainda… Mas a melhor maneira de amenizar essa bagunça interna é trabalhando… Que ironia, meu Deus! Logo ela que passou vinte e tantos anos apenas cuidando da casa, do marido…! Pois é, cuidando do marido. Cuidando do bem estar do marido. Cuidando das roupas, da comida, do prazer… Do marido. Passou vinte anos cuidando alegremente de Otávio e para quê?… Para ser descartada como se fosse uma roupa velha! Vinte anos de nada. O que ela foi para Otávio nesses anos todos? Uma empregada de luxo! E ele nem apareceu ainda para se explicar…! Mas explicar o quê…? Tudo parece bem claro agora. 
    Valentina suspira e senta numa cadeira na varandinha da recepção. Talvez ele ainda apareça… Será que tem outra mulher, como Marcos sugeriu? Talvez sim. Talvez não. Mas não é isso que está incomodando Valentina. Não é o que Otávio fez todos esses anos que a deixa incomodada, constrangida… É o que ela fez. O que ela fez esses anos todos de sua vida? Desses vinte anos em que esteve casada com Otávio, o que realmente ela fez?… E a resposta vem simples, limpa, muito clara em sua mente: NADA. Não fez ABSOLUTAMENTE NADA! Ela torce as mãos, um tanto aflita com essas descobertas, seus olhos se enchem de lágrimas, a mente está confusa, tanto quanto seus sentimentos…
__A senhora tá bem?
Valentina se assusta, tão distraída com seus pensamentos que não viu Antonio se aproximar.     Respira fundo, dá um sorriso e diz:
__Sim, estou. Agora estou bem. E você, como vai?
    A voz dela é meiga, mas Antonio percebe o esforço sobre-humano que ela faz para parecer tranquila… Ele senta ao lado dela.
__Eu tô bem, graças à Deus. Desculpa eu falar, mas… A senhora não devia vir aqui… Pelo menos por enquanto.
__Porque não? Por que me separei de meu marido? - ela dá um sorriso fraco, enxuga as lágrimas dos olhos - Milhares de mulheres se divorciam e continuam suas vidas! Comigo não é diferente.
__Mas é que… Bom, as pessoas falam, né?… Tem muito comentário, muita fofoca, essas coisas… Isso não é legal pra senhora, sabe? Os empregados fazendo comentários, não é legal… - Antonio está um pouco sem jeito, falando essas coisas para a patroa…
__Agradeço sua preocupação. Mas isso não me incomoda. Sei que não fazem por mal, que só estão curiosos, até preocupados comigo… Eu compreendo.
__Ficar se metendo na vida dos outros é errado, poxa…! Acho errado, sabe, ficar falando dos problemas dos outros, fazendo comentário maldoso… Falta de educação pura!
Valentina sorri, agora um sorriso de verdade, sem aquela sombra de aflição por trás…
__Como é o seu nome?
__Antonio.
__Pois é, Antonio… Você parece um cara do bem, que gosta das coisas certas… Fico agradecida por sua preocupação, mas eu tô bem, essas coisas não me afetam.
__Bom… Se a senhora tá dizendo… - ele sorri e se levanta - Boa sorte pra senhora.
__Obrigada, Antonio.
__É que… Eu sei como tá se sentindo. Não é nada fácil separar, né?… Eu sei que não é. Mas dá pra aguentar.
    E antes que ela possa dizer alguma coisa, ele se afasta rapidamente e entra na cozinha. Valentina fica pensando se ele falou aquilo só pra confortá-la ou se por experiência própria…

Capítulo 22

    “O EMPRESÁRIO OTÁVIO MONTENEGRO, SÓCIO DA MAISON ROSSI EVENTOS & BUFFET, FOI VÍTIMA DE UM ATENTADO ONTEM À NOITE QUANDO SAÍA DO HOTEL ONDE ESTAVA HOSPEDADO EM TERESÓLPOLIS. SEGUNDO TESTEMUNHAS, UMA MULHER SURGIU DE REPENTE COM UMA FACA E ATACOU O EMPRESÁRIO. OTAVIO FOI LEVADO PARA O HOSPITAL POR SEU MOTORISTA, COM FERIMENTOS NO BRAÇO, OMBRO E MÃO.”
    A reportagem no telejornal assusta Valentina. Otávio esfaqueado por uma mulher em Teresópolis?! Que estranho…! Ele sequer telefonou, para dizer alguma coisa! E já se vão quinze dias… Ou mais, Valentina nem sabe mais quanto tempo… O que ela sabe é que está sozinha, envergonhada e totalmente sem rumo…! E enquanto isso, seu ex-marido passeia em Teresópolis! O que ele está fazendo lá?
“OTÁVIO MONTENEGRO SEPAROU-SE RECENTEMENTE DE VALENTINA ROSSI DEPOIS DE VINTE ANOS DE CASAMENTO. ELE PASSA BEM, SEGUNDO SEU SECRETÁRIO, MAS DEVE FICAR EM OBSERVAÇÃO POR MAIS UM DIA. A POLÍCIA DISSE QUE ESTÁ INVESTIGANDO O CASO E QUE AINDA NÃO PODE DAR NENHUMA INFORMAÇÃO. A MULHER QUE ATACOU O EMPRESÁRIO, DESAPARECEU EM MEIO À MULTIDÃO, MAS ALGUMAS PESSOAS QUE ESTAVAM SAINDO DO HOTEL NAQUELE MOMENTO DISSERAM TÊ-LA VISTO NO RESTAURANTE, JUSTAMENTE ONDE ESTAVA OTÁVIO. “
    Nossa, isso parece grave! Valentina liga para Theodora, mas a irmã está em reunião e não pôde atender. Sim, ela está com medo… Não consegue imaginar quem fez isso e muito menos o motivo de tal loucura…! tudo bem que Otávio não é um patrão muito simpático, acessível…Mas ela não acredita que um funcionário seria capaz de fazer uma coisa assim. O mundo dos negócios é uma selva, ela bem sabe. Como seu pai costumava dizer é lobo comendo lobo…! Mas nunca pensou que um dia algo desse tipo pudesse acontecer.
Valentina desliga a televisão e suspira.
__Aê, eu disse que ele tava ferrado, não disse!
Valentina olha para a porta e vê Marcos com um sorrisinho nos lábios, de braços cruzados, com ares de vitorioso… É impressão sua ou esse garoto está se divertindo com sua desgraça?…
__Seu tio foi esfaqueado, Marquito. Isso não tem graça nenhuma!
__Tô falando que o Otávio aprontou, caramba! Ninguém leva umas furadas de graça, sendo inocente! Ele aprontou e aprontou feio, hein!
__Chega, Marcos! Eu estou preocupada, não vê? Não tô a fim de ouvir suas gracinhas agora!
__Ah, tá com peninha dele, né! Você é uma otária mesmo! O cara te dá a maior volta, bota a tua cara no chão na frente de um monte de gente e tu ainda defende o safado! - ele entra e senta ao lado dela no sofá - Acha que ele fez o quê pra levar essas facadas, tia? Roubou o doce de alguma criancinha?!
__Quer parar com isso? Por favor, Marcos, para com isso!
__Para com isso você, valeu! Tá dando uma de boazinha, mas por dentro tá bolada com o cara!
__Eu não tô “bolada” coisa nenhuma! Tô preocupada, isso sim…! Não sei como o seu tio está, não faço a menor ideia de quem fez essa maldade e nem o porquê! - Valentina levanta, torcendo as mãos, anda de um lado para o outro da sala… Acho que vou pra Teresópolis, sei lá… Preciso saber o que aconteceu de verdade…
__Caraca, Val! Tu entrou na fila cem vezes pra ser burra, né! Vai fazer o quê lá? Olhar pra cara dele e pedir perdão por ser tão certinha e boba enquanto ele foi safado e esperto?!?
    Uau! Valentina fica sem ação, sem palavras agora…! Pela primeira vez, esse garoto disse uma coisa séria… Otávio agiu errado, não ela.
__Bem, eu vou ligar pra sua mãe mais tarde. Ela já deve estar sabendo e… Vou conversar com ela, me aconselhar…
__Aê, vai por mim…! Esse cara andou aprontando contigo. Fica esperta, Val! - e levanta do sofá num pulo, passando por ela como uma flecha…
    Um adolescente lhe deu uma lição. Valentina está reagindo como se tivesse culpa do atentado, do casamento desfeito… Como se fosse a vilã e Otávio o mocinho nessa estória…! Se está preocupada com a saúde dele? Sim, está preocupada. Mas também esta muito curiosa em saber o que ele fez para ter sido agredido dessa maneira por alguém…

Capítulo 23

    O celular toca. Antonio levanta da cama, muito devagar, ainda tonto de sono.
__Alô?
__Oi, Antonio. - é a voz da Maura…
Antonio se empertiga, o sono desaparece como por encanto.
__Oi, Maura.
__Quero falar contigo. Papo sério.
__Tudo bem. Pode vir aqui quando quiser…
__Não, não…! Eu não vou aí, não. A gente pode conversar pelo telefone mesmo.
__Tudo bem.
    Um breve silêncio…
__Olha… Eu vou ficar longe por um tempo. Muito tempo, na verdade. Talvez… Eu vou pro interior, talvez saia do Rio…
__O quê? - é claro ele não está surpreso…! Já esperava algo assim da parte dela…
__Vou sair do Rio, Antonio. Não sei quando volto. Nem sei se volto…
__Por que? - ele pergunta por perguntar, pois sabe muito bem o motivo…
__Bem, eu acho melhor sair, mudar de ares, sabe… Não tá dando mais pra continuar com essa vida, Antonio.
__Tem certeza que quer falar sobre isso pelo telefone? É coisa muito séria mesmo, Maura… Não é coisa pra se falar pelo telefone… É sobre a nossa vida, a vida dos nossos filhos… Se você não quer vir aqui, tudo bem… Acho que a gente pode se encontrar em algum lugar pra conversar…
__Antonio, eu não… Olha só, eu… Tá bom, tá bom. Vamos ver… A gente pode se encontrar no boteco do Zeca, ali em Marechal Hermes… Pode ser hoje?
__Tudo bem. Na hora do almoço, tá bom pra você?
__Tá, tranquilo.
__As crianças estão com saudade de você…
__Tchau, Antonio. Tenho que desligar. Até daqui a pouco. Tchau! - e ela desliga rápido.
    Antonio fica parado, sem saber nem o que pensar… O que diabos foi isso, caramba?! Ela nem perguntou pelos filhos…! Parecia aflita, nervosa, confusa, sei lá… Antonio nunca viu Maura aflita, assim meio que assustada como sentiu hoje. Estranha, ela está estranha mesmo!… Nem uma palavra nos filhos, apenas uma pressa em falar com ele, em dizer o que ele presume já saber… Vai sair do Rio. Mas por que? O que faria Maura deixar seus filhos, sua casa para trás e sair do Rio? Parece uma fuga… Mas fugir do quê, afinal?… Não sabe o que dizer aos filhos, não sabe o que dizer a si mesmo!… Ele só quer uma explicação. Qualquer coisa, qualquer coisa… Alguma coisa que justifique essa atitude louca de Maura!…
__A cobra peçonhenta te ligou, né? - Sílvia aparece na porta do quarto - O que ela disse?
Ele levanta da cama, respira fundo, sentindo um cansaço terrível… Mas não é um cansaço do corpo… É um cansaço emocional, da alma… Está cansado dessa situação, está cansado das loucuras de Maura, está cansado de aceitar as migalhas que ela joga em seu coração… Está cansado.
__Ela quer conversar.
__Ah, tá! Aquela safada quer conversar o quê?!? - Sílvia está indignada…
__Ela vai embora do Rio, tia.
__Como é que é?! Vai embora do Rio? Tipo pra sempre?…
__Eu não sei. Ela parece meio aflita, sei lá… Tá muito estranha, ansiosa… Eu não sei o que tá rolando, tia. A gente vai se encontrar hoje na hora do almoço.
__Aqui em casa? Meu Deus do céu! As crianças vão surtar, Antonio!
__Não, ela não vem aqui não. A gente vai se encontrar em outro lugar. E… ela nem perguntou pelas crianças.
__Eu não tô nem um pouco surpresa, Antonio! Quer saber o que eu acho?… Acho que é melhor mesmo ela não perguntar dos filhos. Ela não tá nem aí pra eles! Nunca teve. E quer saber mais uma coisa? Você devia esquecer essa mulher também. Meu filho, você é jovem, bondoso, trabalhador, bom pai… Segue a tua vida, Antonio, esquece essa bruxa…!
__Não é tão simples assim, tia. Não é só a minha vida, é a vida dos meus filhos também.

Capítulo 24

    Os filhos. Antonio sempre quis ter filhos. Como filho único, que perdeu os pais ainda menino, seu sonho era ter uma família grande, unida, alegre e carinhosa. Bem, era sonho mesmo… A realidade se mostrou muito diferente quando Antonio casou com Maura. Os filhos que ele tanto queria ter, ela relutou ao máximo… Isso mesmo, Maura não queria filhos. Não da mesma forma que Antonio queria. Foi muito difícil e complicado para eles, talvez mais para ela que achava a gravidez um martírio e a maternidade uma prisão…
    Antonio procura por Maura com os olhos assim que entra no bar. Pensou tanto no que iria dizer, nem almoçou direito de tanta tensão… E agora, que está diante dela, as palavras sumiram de sua mente… Ele sorri, acenando discretamente. Maura sorri de volta, acomodada numa mesa no fundo do bar.
__Livre… A gente não tá livre, Maura. A gente tem filhos. Nunca estaremos livres.
__Isso não tem nada a ver com os filhos, porra…! Isso é entre a gente, pelo amor de Deus! Dá pra esquecer um pouco essa coisa de filhos e conversar sobre a gente?
__Agora você quer conversar… Antes era só reclamação, xingamento, revolta… agora quer conversar…! - ele ri, mas ainda não acredita que está tendo essa conversa surreal com Maura…
__Acho que eu precisava falar o que queria fazer. Por isso eu tô aqui, Antonio. Pra você não dizer que eu não avisei a minha decisão, que eu sumi sem dar explicação…
__Ainda não explicou nada, Maura. Ainda não disse porquê vai embora. E não vem com esse papo de que é por causa da vida de merda que leva…! Se fosse esse o motivo, você já teria ido faz tempo.
__Eu não te amo mais. - a voz dela é firme, quase fria ao dizer isso… - Não te amo faz muito tempo. Esse é o motivo. Você não é o homem certo pra mim, e eu não sou a mulher certa pra você… Então, eu vou viver a minha vida. Espero que você faça o mesmo: viva a sua vida. - e ela se levanta.
__Espera aí… - ele a segura pelo braço - É só isso?… Me chamou aqui pra dizer isso?… Que não me ama eu já sei faz tempo!… Mas e o resto? E as crianças, Maura?
__Eles estão melhor com você. Eu não sou a pessoa mais indicada pra cuidar deles, Antonio. - ela sorri de leve, segura a mão dele com carinho - Fica na paz, Antonio.
    E Maura vai embora. Assim, do nada, sem mais nem menos…

Capítulo 25

    Valentina abre a porta do quarto e dá um sorriso forçado ao ver Otávio recostado na cama.
__Olá, Otávio. Como você está?
__Melhorando… - ele se ajeita na cama, parece incomodado com a presença de Valentina… - E você? Veio fazer o quê aqui?…
__Eu…
__Veio conferir se eu estava mesmo vivo, não é?…
__Vim saber como você está. - ela prefere ignorar o deboche… - Isso foi uma tentativa de assalto…?
__Talvez… É uma possibilidade…
__Mas essa pessoa estava no mesmo restaurante que você…Foi o que disse o jornal.
Otávio respira fundo, fica muito sério. Decididamente, ele está muito incomodado em ver Valentina…!
__Eu não sei. É o que dizem alguns noticiários… Algumas pessoas que estavam no restaurante disseram ter visto uma pessoa como essa mulher… Eu não prestei atenção, não mesmo.
__Que horror! Onde vamos parar com tanta violência?! - na verdade ela não está muito convencida se foi realmente uma tentativa de assalto… _ Já prestou queixa na delegacia?
__Sim, estão investigando. Mas não acredito que encontrem a tal infeliz…
__Porque não? Se foi assalto, eles vão encontrar!
__Olha, Valentina… Eu preciso descansar agora.
__Ah, sim… Claro. - ela se afasta dele e sorri enquanto abre a porta do quarto - Por favor, me dê notícias, me informe sobre o caso, ok?
__Na verdade, não quero levar isso adiante. - ele diz, num tom entre o resignado e incrédulo.
__Como assim não quer ?… Você foi ferido por uma louca, podia ter morrido, Otávio! Acho que deveria sim levar essa estória até o fim! Essa mulher deve ser punida, não acha?
    Otávio respira fundo mais uma vez. Ele está um pouco pálido, mão e braço enfaixados. Parece frágil, desamparado… Parece assustado, isso mesmo.
__Eu acho que a polícia tem coisas mais sérias pra fazer do que ficar correndo atrás de uma psicótica qualquer. E eu também tenho coisas mais sérias pra fazer do que me preocupar com isso.
__Não está com medo? - Valentina fecha a porta e se aproxima novamente dele - Não tem medo que essa criatura possa voltar e tentar de novo?
__Não. Acho que ela não seria burra a esse ponto. E depois, eu tenho minha vida, não posso perder meu tempo com essa bobagem.
__Isso não é bobagem, Otávio! Você podia ter morrido! Isso é muito sério…!
__Gostaria que eu tivesse morrido, não é? - ele sorri de leve…
__Claro que não! Nós estamos separados, mas…
__Sim, estamos separados, E vamos continuar assim, Valentina. Agora eu gostaria que fosse embora. Preciso descansar.
__Ah, claro, claro… Tchau, Otávio. - ela está desconcertada… - Espero que fique bem.
    Estranho. Foi no mínimo estranho esse encontro deles. Valentina nem sabe dizer como conseguiu chegar em casa de tão transtornada que estava…! Talvez Marcos tenha razão. Há alguma coisa pairando sobre essa estória… Uma peça neste quebra cabeça que não se encaixa… Valentina toma um banho e depois desce para comer alguma coisa. Encontra Marcos com a televisão ligada, um sorrisinho nos lábios…
__Oi, Marquito. O que foi que aconteceu? - ela senta ao lado dele no sofá da sala.
__O Otávio acabou de dar uma entrevista. O cara é um merda mesmo! Disse que vai retirar a queixa.
__O quê? Mas porquê? - ela está surpresa…ou não.
__Qual é, Val! Só dois motivos pra alguém retirar uma queixa tipo essa: ou tá com muito medo ou conhece quem fez a situação!
__Como assim?
__Pode ser que o Otávio esteja com medo, tipo pode acontecer outra vez e tal… Mas também pode ser que ele tenha retirado a queixa porque conhece a lesada que fez essa merda.
__Não, isso não…! Talvez ele esteja querendo proteger as empresas, a família…Ou sim, pode ser por medo de uma nova tentativa… Mas daí a conhecer… Impossível, Marquito!
__Tu é boba mesmo…! - ele ri - Tá na cara que ele te sacaneou a vida toda, Val! Mas quer saber: acho que tu não foi a única…!
__Marcos! Tá insinuando o quê?
    Marcos levanta, deliga a televisão e diz:
__Tô é dizendo que tem um par de chifres aí na tua cabeça, Valentina. Fica esperta, tia! Fica esperta! - e sai da sala sem esperar resposta…
    Um par de chifres. Valentina respira fundo e se encolhe no sofá. Traição. Será?… O Marcos é só um adolescente implicante e provocador! O que ele entende de relacionamentos? Sua vida mal começou, não tem experiência alguma…! Traição. Isso é uma coisa muito séria. Não consegue ver Otávio desse jeito, como um canalha, um insensível… Por mais que ele a tenha magoado com essa separação, toda a humilhação que a fez passar, por mais que… Valentina não consegue ver desse ângulo. Então Otávio a traiu esses anos todos?… Ou isso começou a pouco tempo?… Ela levanta, começa a andar pela sala, desnorteada. Não sabe mais o que pensar…! E muito menos o que fazer...
__Ah, você está aqui…! - exclama Theodora, entrando na sala.
__Oi, Theodora. Você viu o que Otávio fez?
__Sim, eu vi. - Theodora se joga no sofá e acende um cigarro - Que pena que ele não morreu!
__Theodora!
__Foi bem feito pra ele! Aquele verme mereceu! Pena que a criatura errou!
__Para com isso, Theodora…! Eu estou ficando assustada com essa situação…
__Quem tem que ficar assustado é ele, Valentina! Vai que a mulher resolve voltar e acabar com a raça dele?…
__Não diga isso nem brincando…!
__Não estou brincando, Val.
    Então Valentina encara a irmã. Há um brilho de raiva nos olhos dela, a expressão impassível como sempre, porém com uma sutil emoção que Valentina não consegue saber qual é…
__Eu não sei o que tá acontecendo com o Otávio, mas não quero ficar atirando pedras sem saber se ele é culpado… - Valentina senta ao lado da irmã - Não sei o porquê dessa separação, confesso que ainda estou muito confusa… Eu fui lá ver o Otávio… Fui na esperança de que ele me dissesse alguma coisa, uma explicação… Ele mal olhou pra mim.
__Bem feito! Ele é um canalha e você uma babaca! - ela se levanta, agitando os braços, agora visivelmente irritada… - Você gosta de ser babaca, Valentina! Talvez mereça mesmo um par de chifres nessa cabeça oca!
__Chega, Theodora!… - ela leva as mãos aos ouvidos, sentindo-se humilhada, devastada…
__Tudo bem… Não vou falar mais nada. O problema é seu. Resolva como bem quiser.
__Eu preciso de ajuda, não de críticas… - diz Valentina, num fio de voz.
__Fraca. Você sempre foi fraca… - Theodora se aproxima da irmã com um sorrisinho estranho… - Mas vou te dar um conselho, Valentina: esqueça esse homem e segue sua vida. Ele não vale toda a sua dedicação.
    E dizendo isso, Theodora sai da sala.

Capítulo 26

    Trabalho. O melhor a fazer agora é trabalhar. Antonio ainda tem as palavras de Maura latejando em sua mente, mas precisa focar em outras coisas, pra não pirar… Então ele vai trabalhar. Porque vai precisar de forças para explicar aos filhos a decisão de Maura. Ainda não acredita que ela teve coragem de fazer isso…! Ir embora, sem mais nem menos, abandonar os filhos sem uma explicação razoável, sem um momento de afeto… “ Você merece uma mulher melhor! ” - é a frase que Silvia disse que lhe vem à cabeça agora. É, talvez sua tia tenha mesmo razão. Ele merece alguém melhor. Seus filhos merecem uma mãe melhor!
     Antonio sacode a cabeça, como se quisesse apagar toda essa estória estranha… Ah, chega de sofrer por causa de Maura! Ela deixou mais do que claro que não dá a mínima pros filhos, pra casa, pra ele, pra nada! Ela vai recomeçar sua vida em outro lugar, sem uma gota de culpa…! E ele? Como fica? Ah, chega desse sofrimento, meu Deus! Antonio respira fundo, tentando deixar o coração mais calmo. Ele vai recomeçar também. Ainda não sabe como vai ser, mas vai recomeçar sua vida.
__E aí, meu irmão? Tá tranquilo? - pergunta Joca, assim que Antonio entra na cozinha da Maison. - E a cobra peçonhenta, deu notícias?
__Ela foi embora do Rio. Não sei pra onde, e nem quero saber. - é a resposta dele, muito tranquilo mesmo…
__Nossa, que maravilha! - exclama Joca - Finalmente tu vai se livrar daquela peste ordinária!
__Vamos trabalhar, João Carlos?… Chega de conversa fiada, meu amigo!
__Tá legal, tá legal…! Foi mal, Antonio.
__Tudo bem. Vamos trabalhar!
__Falando em trabalho, sabe quem ligou hoje?
__Dona Valentina?
__Otávio Montenegro.
__O quê? E o quê ele queria?
__Sei lá… Conversou com o Chief Lorrain e depois com o chefe do RH… Mistério misterioso…!     Esse cara tá aprontando…!
__Ele já voltou pro Rio?
__Não sei também. Mas vou ligar a televisão pra saber. O cara tomou umas facadas e virou celebridade, é mole!
__E a dona Valentina, apareceu?
__Não. Mas a sargentona veio e deu umas ordens loucas pra geral…!
__Sei… A coisa tá feia pra eles também…
__Tá nada! Gente rica tá sempre bem, meu irmão! Com dinheiro no bolso não tem problema certo! Agora a gente que é pobre, qualquer coisinha ferra com tudo!
__Eu acho que a dona Valentina tá sofrendo pra caramba… Passou uma vergonha danada, humilhação mesmo…! Normal ela não querer vir na Maison… Deve tá magoada, sem rumo, com vergonha…
__É, a patroa é gente boa. Mas é rica, né…? E daqui a pouco se recupera, faz uma viagem pro estrangeiro pra esquecer essas merdas todas e volta novinha em folha!

Capítulo 27

    Quando Valentina abriu a porta do seu escritório para receber o advogado de Otávio nem sequer imaginou sobre o que falariam…Então o homem baixo, de cabelos grisalhos e olhos muito redondos coloca sobre a mesa alguns papéis.
__São os papéis do divórcio…? - ela pergunta.
__Também.
__Como assim “também” ?…
__A senhora pode ler, d. Valentina. - ele diz, muito suavemente, como se falasse com uma criança…
    Divórcio. Os papéis do divórcio, claro. Otávio quer uma separação amigável… Mas e esses outros papéis, o que são?… Valentina lê devagar, um tanto incrédula do que está escrito…
__Mas o que significa isso?! - ela solta os papéis sobre a mesa, esperando uma explicação do advogado… - O que é isso, pelo amor de Deus?!? Otávio quer a Maison, essa casa, a escola de culinária… Ele quer tudo! Isso não pode ser!
__D. Valentina, a senhora não terminou de ler…
__Nem preciso! Isso é um absurdo, uma canalhice! - ela se levanta, anda pelo escritório, nervosa, indignada…
__Precisa ler o resto. O outro documento.
__Que loucura, que loucura…! Ele acha que vou concordar com isso?! Pois não vou!
__Senhora, leia o outro documento. Ou prefere que eu leia?
    Valentina para diante do homem, olha para o papel sobre a mesa. O advogado tem uma expressão de pesar no rosto magro… Ele pega o documento e entrega à Valentina com um leve sorriso…
__Por favor, eu gostaria que lesse. - ela devolve o papel e senta no sofazinho perto da janela, esfregando as mãos, nervosamente… Um pressentimento ruim a faz estremecer…
__Vou explicar o que diz o documento, d. Valentina. Trata-se de uma denúncia contra a senhora. A senhora é acusada de desviar dinheiro das empresas.
__O quê…?! - ela empalidece, mas ainda não está entendendo… - Como assim, desviando dinheiro das empresas?!? Eu sou dona das empresas, porque desviaria dinheiro?…
__A acusação foi feita há alguns meses, por um funcionário da senhora. E foi confirmada por seu marido, há algumas semanas.
__Funcionário… Que funcionário? E porque Otávio acreditou nele?
__Bem, em resumo, d. Valentina, a senhora deu um grande desfalque nas suas empresas e as provas chegaram até seu ex-marido. Ele resolveu investigar tudo, entrou em contato com o ex-funcionário… Aliás, ele me contratou para resolver essa questão. - o homem diz, simplesmente.
    Valentina abre a boca e fecha de novo, não sabe o que dizer…Como isso pôde acontecer?…Como alguém rouba suas empresas e ela não percebe? Quem faria essa maldade? Suas empresas, saqueadas por… Meu Deus, que loucura…! De repente, Valentina se dá conta de que quem está sendo acusada de roubo é ela. Sente o chão sumir, a vista escurece, quase cai… O advogado, assustado, logo a ampara, levando-a para uma cadeira.
__A senhora está bem? - ele pergunta, num tom quase amável - Quer um copo d’água?
__Não, eu tô bem… Obrigada. - ela passa a mão pelos cabelos, está tremendo de nervoso e angústia… - Eu… eu preciso pensar, analisar com calma esses papéis… Sinceramente, estou muito surpresa e indignada. Não esperava por isso… Não esperava por essa do Otávio. - ela se empertiga, ainda um tanto trêmula - Mas diga à ele que vou ler os papéis e depois darei uma resposta.
__O dr. Otávio quer uma resposta ainda hoje, senhora.
__Ele quer, é…? Pois vai ficar querendo! Preciso ler de novo, entender tudo o que está escrito e aí sim, dar uma resposta.
__Senhora, os documentos do divórcio estão bem claros, eu acho…
__Não estou falando do divórcio. Estou falando das benditas acusações! - ela se levanta de repente e pega os papéis - O divórcio, eu assino, sem problemas. Mas ele não vai ficar com tudo não! Não mesmo! Pode dizer isso pra ele. - joga os papéis no chão e sai da sala batendo a porta.
    Revolta, é o que ela sente. Ainda não acredita que Otávio foi capaz de fazer isso! Uma acusação absurda, sem fundamento algum…! Como ele teve coragem de acusá-la de roubar as próprias empresas e ainda querer ficar com todos os seus bens no divórcio?! Não, ela não vai aceitar isso!
Valentina está tão desorientada que nem sabe o que fazer, o que pensar… Para no meio do corredor, fica tonta e desmaia.
********************************************************************************
__Oi, Val! Finalmente acordou…! - o rosto sério de Theodora é o que Valentina vê assim que abre os olhos… - Você tá bem?
Valentina se remexe na cama, respira fundo e encara a irmã.
__Eu tô bem. Mas não está tudo bem.
__O que aconteceu?
    Ela senta na cama, passando a mão pelos cabelos desgrenhados.
__Otávio mandou os papéis do divórcio.
__Ah, Valentina…! Você já sabia disso, minha irmã… Ele disse que queria o divórcio, Valentina.
__Ele quer me destruir, Theodora! É isso o que ele quer…!
__Que paranoia é essa agora?!
__Otávio mandou os papéis do divórcio e também uma acusação de desvio de dinheiro das empresas.
__Acusação? Contra você?
    Valentina olha para a irmã e não consegue decifrar o sentimento nos olhos de Theodora…
__Sim, ele teve essa coragem. Agora, além de péssima esposa sou uma criminosa também!
__Isso é verdade ou você só está fazendo drama, Val?
    O tom meio debochado na voz de Theodora incomoda Valentina.
__Eu não estou fazendo drama. O advogado do Otávio trouxe uns papéis… Parece que um ex-funcionário fez uma denúncia sobre um desvio de dinheiro das empresas… Eu não sei se isso é verdade ou não, mas o Otávio acredita que sim e está me acusando. - ela respira fundo, esfrega as mãos, aflita - Ele é um canalha!

Capítulo 28

__Olha, Val… Será que você não entendeu errado? Talvez você tenha se confundido com as palavras, aquela papelada toda, enfim… Pode não ser nada disso. - diz Theodora, com o mesmo tom de deboche de antes…
__Acho que é você quem não tá entendendo, Theodora. - sim, ela está irritada e um tanto surpresa com a reação da irmã… - O Otávio fez uma acusação muito séria e tenho certeza de que ele vai até o fim com isso! Não fiz confusão alguma, droga! O Otávio não quer apenas se divorciar de mim… Ele quer ficar com tudo o que tenho, quer me colocar na cadeia, Theodora!
    Theodora dá uma risadinha.
__Meu Deus, Valentina, olha como você está falando! Quanto drama, minha irmã! Não acho que Otávio queira “ te destruir ”… Parece coisa de novela mexicana, Valentina! Pode ser que ele se ache no direito de ficar com a maior parte dos bens na divisão do divórcio… Mas essa coisa de roubo, de desfalque…Não acho que seja assim do jeito que você diz.
    Valentina não entende a reação da irmã… A impressão que tem é de que Theodora está defendendo Otávio…! Tomara que não seja isso. Tomara que seja apenas impressão…
__Pode perguntar ao advogado se quiser. Foi ele quem explicou tudo. Mas quero falar com o meu advogado antes de qualquer coisa. Preciso saber de tudo direitinho, que medidas tenho que tomar…
    Theodora senta na beira da cama e sorri muito meigamente para ela. Um sorriso raramente visto nos lábios de Theodora…
__Minha irmã, fica calma… Relaxe, se acalme… Talvez as coisas não sejam assim tão graves…! Essa acusação pode ser um blefe do Otávio. Aliás, ele é mestre nisso…!
__Blefe? Não, eu não acho. - ela se levanta da cama, realmente incomodada com essa estranha reação de Theodora… - Eu vou ligar pro meu advogado. Ele vai me dizer o que fazer. Pensei que você pudesse me ajudar, mas já vi que não pode.
__Claro que te ajudo, Val!… Mas acho que nesse estado em que está não vai conseguir resolver nada! Precisa se acalmar, mulher! Tá surtando e acaba exagerando!
__Não tô surtando! - ela grita - Eu tô nervosa, aflita, com medo… Mas não tô descontrolada, Theodora!
__Calma, Valentina…
__Eu não quero ficar calma! - grita, esmurrando a poorta do quarto - Eu não quero entregar meus negócios numa bandeja de prata pro canalha do Otávio! O patrimônio da nossa família, Theodora…! Não quero que aquele verme fique com tudo o que nossos pais lutaram a vida toda pra conseguir! Você deveria ser a primeira a se preocupar com isso, já que administra quase tudo!
    Theodora se levanta, anda calmamente até a porta. Sorri e beija Valentina no rosto, com carinho…
__Acho melhor você dormir um pouco, Val. Descanse, depois a gente conversa com calma sobre isso.
    E Theodora sai do quarto deixando Valentina ainda mais aflita e confusa… mas a única coisa que ela sabe que precisa fazer é falar com seu advogado. O mais rápido possível.

Capítulo 29

    Antonio só não ficou mais preocupado com o entra e sai na Maison porque tem suas próprias preocupações… Ele até tentou prestar atenção no que Joca dizia quando estavam no ponto de ônibus indo pra casa, mas sua cabeça estava em outro lugar. A verdade é que ele não está preocupado com Maura. Pouco lhe importa o que ela decidiu fazer da vida…! Antonio está preocupado com seus filhos. Com Maura por perto, mesmo que não ajudando em praticamente nada na educação dos filhos, já era complicado, que dirá agora que ele está sozinho com dois adolescentes…! Claro que pode contar com a ajuda da tia, mas o pai é ele. A responsabilidade agora é toda dele. Sílvia não acha certo, ficou revoltadíssima quando Antonio falou que não pretende procurar por Maura…
__Não, aquela infeliz não precisa voltar não! - disse Sílvia, enquanto servia o jantar para o sobrinho - Mas tem que cuidar dos filhos sim! Dar toda a assistência pra eles, como manda a lei!
__Lei? Que lei, tia?
__Ué, vocês não estão separando?! O juiz vai dizer direitinho tudo como deve ser, Antonio!
__Tia, por favor…!

Capítulo 30

    O advogado de Valentina respira fundo. Olha muito sério para os papéis em suas mãos e então se volta para ela.
__Isso é realmente complicado, Valentina. E muito sério.
    Ela se remexe na cadeira, aflita.
__Como assim, Cláudio? O que há de errado?
__Essas acusações são muito graves… Se Otávio tiver como provar que…
__Provar o quê, Cláudio?! - ela se levanta, irritada e indignada com a insinuação do advogado - Pelo amor de Deus, isso é tudo mentira!!! Você me conhece desde sempre, Cláudio! Sabe que eu jamais faria uma loucura dessas! - ela anda de um lado para o outro, gesticulando largamente - Teria de ser muito burra pra roubar a própria empresa…!
__Por favor, Valentina, se acalme…! Ficar descontrolada não vai ajudar a resolver a situação, minha amiga!
    Valentina para, suspira e volta a sentar. Sim, sua cabeça está girando a mil por hora, pensamentos e sentimentos desencontrados… Mas a raiva, a indignação e a humilhação são muito fortes, ela não consegue evitar…!
__O que você pode fazer pra me ajudar, Cláudio? - ela diz, num desalento.
__Acho que devemos nos concentrar primeiro no divórcio. Pelo que eu estou vendo, o Otávio quer o divórcio, mas não quer dividir os bens…
__Sim, exatamente o que penso. Mas ele está jogando sujo, inventando essas mentiras sobre mim!… Ele quer tirar de mim as empresas que meus pais criaram e deixaram como herança! Isso é muito injusto!
__Eu diria que isso é muito suspeito. Porque não há necessidade de Otávio agir dessa forma, já que tem uma carreira sólida e certamente também tem uma boa conta bancária…
__Está querendo dizer o quê?
__Parece óbvio, Valentina! Ele não te acusaria de desfalque se não tivesse algum interesse nisso! Eu não quero ser pessimista, mas… - ele faz um pausa breve como se buscando as palavras certas… - Se Otávio tiver provas que houve desfalque e que você foi a responsável, poderá te colocar na cadeia.
__Meu Deus… Porque tanta maldade? - Valentina sente uma tristeza enorme em pensar que passou vinte anos de sua vida com um homem totalmente desconhecido… - E o que vamos fazer, Cláudio?
__Por enquanto vamos focar no divórcio. E claro, investigar essas denúncias, essa testemunha que ele diz ter contra você, essa suposta documentação… Seria bom marcarmos uma reunião com Otávio e o advogado dele.
__Sim, claro. Mas antes eu quero conversar com Otávio. A sós. Quero ter uma conversa definitiva com ele… Tentar descobrir o motivo dessa canalhice toda comigo!…
 
Capítulo 31

    Antonio respira fundo antes de pegar o celular. O que Maura quer agora?! Já não basta ter criado toda essa confusão com seus filhos e colocado sua vida de pernas pro ar?!
__Oi, Maura. O que você quer? - ele não consegue disfarçar sua irritação...
__Tô ligando pra dizer que vou viajar. Vou ficar muito tempo longe.
__Você não precisa me dar satisfação de nada, Maura. A vida é sua, faça o que quiser.
__Eu vou pra São Paulo. Vou ficar muito tempo por lá... - ela fica em silêncio por uns instantes... - Talvez não volte mais.
__Tudo bem... Eu não tô nem um pouco surpreso com isso. O que me surpreende é você dar explicação...
__A gente precisa se separar, Antonio... A gente precisa se separar no papel.
    Ah, agora está explicado...! Ela quer o divórcio...
__Entendi... Ligou pra falar do divórcio.
__É, acho que a gente precisa fazer isso... Eu quero seguir com a minha vida e você segue com a sua... Os dois livres.
__E as crianças, Maura? Você não vai conversar com seus filhos? Não vai explicar a situação pra eles?
__Fala tu, Antonio! Tu que tem mais jeito pra essa cooisas do que eu! Tu explica, tá bom?
__Não, não tá bom, Maura! - ele quase grita, está muito irritado e indignado com a atitude de Maura... - Você continua sendo a mãe deles, caramba! Precisa conversar com eles e explicar o que tá fazendo! Eu não vou falar nada!
__Olha, eu tenho que  ir pra São Paulo... Tô indo mês que vem, no mãximo. A gente tem que resolver o lance do divórcio rápido...!
__Rápido...? Porque tão rápido, Maura? Porque essa pressa toda de ir pra São Paulo?
__Que merda, Antonio! Eu quero resolver a minha vida! Tenho uns lances em São Paulo, quero recomeçar minha vida!
__Tá certo. Direito seu seguir em frente... Mas ir assim, como se estivesse fugindo... Deixando os filhos pra trás, sem dar uma explicação! Precisa falar com as crianças primeiro, Maura. Depois a gente conversa sobre o divórcio.
__Não, Antonio! Já tá tudo certo em São Paulo, por isso eu quero resolver essa parada logo!
__Olha, Maura... Eu tô muito cansado, trabalhei feito burro de carga... Quero dormir, descansar... Amanhã a gente conversa com calma.
__Então amanhã eu passo aí pra gente conversar.
__Vai falar com as crianças também?
__Tá, tá, eu falo! Passo aí na hora do almoço?
__Tudo bem, pode ser.
__Tchau, Antonio!
    E ela desliga. Antonio suspira, passa as mãos pelos cabelos e se joga na cama. Criatura irresponsável! E insensível. em nenhum momento ela falou dos filhos, sequer perguntou como eles estão...! Mas ele não está surpreso. Maura nunca foi uma boa mãe. O que o surpreende mesmo é essa estória de São Paulo... Assim, do nada, ela resolve ir embora para outro estado e provavelmente não voltará mais... Isso não parece coisa boa!... Tem coisa errada aí...


Capítulo 32

    Valentina entra na sala e vê Otávio parado perto da janela. Ele parece bem depois do atentado que sofreu...
--- Boa tarde, Otávio. - ela diz depois de fechar a porta.
--- Boa tarde, Valentina.
--- Quero conversar com você...
--- Sobre o divórcio, suponho.
--- Não. Sobre as empresas. As minhas empresas.
    Otávio dá um sorrisinho e meneia a cabeça antes de responder...
--- NOSSAS EMPRESAS, Valentina. Ainda somos casados, lembra?
--- Porque inventou essa estória de desfalque, Otávio? - ela prefere ir direto ao ponto...
--- Estória?! Não é estória, Valentina. E você sabe muito bem que não.
--- Eu teria de ser muito idiota e burra pra roubar minhas próprias empresas, Otávio!
--- A verdade é que você nunca foi mesmo muito esperta, Valentina... - ele sorri, como se estivesse dizendo um elogio... - Mas eu acho que você fez isso por ingenuidade... Como as empresas são suas, com certeza achou que poderia tirar dinheiro sem problemas...
--- Eu não tenho experiência em administrar empresas, mas não sou tão imbecil a ponto de não saber o que é roubo, Otávio! - ela quase grita, muito nervosa e incomodada com a atitude dele... - Você inventou isso, essas tais provas, esse tal ex-empregado, toda essa mentirada pra me prejudicar!
--- Não é mentira, Valentina. Você sabe que não. Se você fez o que fez por ingenuidade, por achar que não tinha nada demais, eu vou entender perfeitamente... Afinal, você não entende nada de finanças, não é mesmo...? - Otávio sorri de novo, mas desta vez com os olhos... - Fez o que fez por ignorância, isso é compreensível.
--- Eu não fiz nada, Otávio. E você disse bem: não entendo nada de finanças... Tanto que deixei essa parte à sua responsabilidade. Se alguém conseguiu dar um golpe nas empresas bem debaixo do seu nariz, a culpa é sua e não minha! - agora ela se acalma, consegue falar mais tranquilamente...
    O rosto de Otávio continua calmo, impassível e com aquele sorriso odioso nos olhos... Mas Valentina sente que ele ficou irritado com o que diz...
--- Já conversou com seu advogado sobre o divórcio, suponho. - e ele muda de assunto...
--- Sim, mas isso é coisa pra depois, Otávio. Agora eu quero que você retire essas acusações idiotas sobre mim.
    Otávio caminha devagar até uma poltrona e senta, encarando Valentina.
--- Isso não será possível, Valentina.
--- Como não será possível?...
--- Será feita uma auditoria nas empresas ainda essa semana. Apenas para confirmar e comprovar o que já sabemos. E em breve você será intimada a depor sobre o desfalque...
--- O quê?! - ela nem consegue pensar agora...
--- Eu tenho as provas, Valentina. Infelizmente pra você e felizmente pra mim. - ele abre um sorriso entre triunfante e debochado - Se conseguir provar que não roubou todo esse dinheiro, tudo bem... Mas se ficar comprovado que você é a responsável por esse rombo gigante nas empresas, as coisas vão se complicar muito pro seu lado, querida.
--- Eu não roubei nada!
--- Prove e tudo ficará bem!
--- Você é um canalha! - ela grita, furiosa e frustrada.
--- E você é muito mais burra do que eu pensava! - ele se levanta, anda até a porta - Lembrando que se não conseguir provar a sua inocência, irá pra cadeia.
--- Canalha! Fora daqui! Fora da minha casa!
--- NOSSA CASA, minha querida!
--- Vá embora, Otávio! Seu ordinário, fora da minha casa!
    Otávio dá uma risada, abre a porta e diz:
--- Ainda é sua casa, Val. Por enquanto! - e ele sai, rindo divertidamente...
    E Valentina fica ali parada, os olhos arregalados, coração disparado... Está com medo, mas também com muita raiva e revolta...! Qual o objetivo de Otávio com isso? Se ele quer dinheiro, a direção das empresas, não precisava fazer esse jogo sujo, bastava conversar pra entrar em acordo com ela... Ele não quer apenas o controle dos negócios ou uma conta bancária gorda... Ele quer destruir Valentina, coloca-la na cadeia...! Quer tirá - la do seu caminho e ficar com tudo! Valentina estremece com esse pensamento...

Capítulo 33

__Isso não tá certo…Não tá certo! Que tipo de mulher é essa, gente?!?
__Tia, calma…
__Calma nada! Não sei como você aguenta essa sacanagem, Antonio! Que ela não quer mais ficar contigo, se quer a separação, tudo bem… Até dá pra aceitar. Mas abandonar os filhos , sem dar uma explicação e ir embora pra São Paulo, é demais pra minha cabeça! - Silvia está indignada, anda de um lado para o outro da varanda… __ Que tipo de mulher faz uma coisa dessa, Antonio?!
    Antonio respira fundo, fecha os olhos por um instante.
__Calma, tia. Ela disse que quer conversar, então a gente vai conversar.
__Conversar o quê? Essa vagabunda doida deve ter outro homem, isso sim! - ela gesticula, quase gritando enquanto anda pela varanda - Eu já desconfiava disso faz tempo… Safada, irresponsável, sem um pingo de sentimento essa infeliz…!
__Tia, por favor… Chega, tá? A Maura vai viver a vida dela, e eu vou viver a minha. Não tô interessado se ela tem um amante ou não… Tô mais interessado na felicidade dos meus filhos.
__Não sei como você…
    Nesse momento, um carro para em frente a casa. Maura sai do carro e para diante do portão.
__Ah, ela já chegou… - murmura Silvia, enquanto senta ao lado de Antonio.
Maura abre o portão devagar e entra. Dá um sorrisinho para Antonio e Silvia.
__Oi, Antonio. Oi, Silvia.
__Bem, eu vou fazer um café… - Silvia levanta rapidamente e entra em casa, sequer olha para Maura…
    Maura senta na cadeira em frente a Antonio e esfrega as mãos, nervosamente.
__Então, você vai pra São Paulo… - diz Antonio.
__É, vou. E talvez não volte. Eu tenho umas paradas em São Paulo, acho que é melhor pra mim ir logo, tentar a vida por lá…
__Umas paradas?… Que paradas?
__Coisa de trabalho, uns amigos me arrumaram… Aqui não dá mais pra ficar. Quero viver a minha vida, do jeito que acho que tenho que viver…
__E as crianças, Maura? Vai falar com eles?
__Tá, eu vou falar.
__Não é pra mim que tem que se explicar, Maura. É pros seus filhos.
__Você tem mais jeito com eles, né…
__Com jeito ou sem jeito, você vai conversar com eles.
    Maura suspira, passa as mãos pelos cabelos.
__Tá bom, tá bom…! Mas eu queria te falar o que tá rolando, Antonio… Eu não sei se volto, não sei se vai dar certo em São Paulo… Mas eu não quero ficar aqui, nessa vida de merda não!…
__Tem todo direito de recomeçar sua vida. Mas precisa falar com as crianças, Maura.
Ela se levanta, se aproxima dele e diz:
__Eu quero me separar de você, Antonio. O divórcio. Pode ficar com as crianças… Eu sei que vai cuidar delas melhor que eu.
__Eles estão no quarto. - ele prefere ignorar o que ela diz, está muito irritado e estranho… - Quer entrar ou prefere conversar aqui fora?
__Melhor ficar aqui…
__Tá bom. Vou chamar as crianças.
__Mas a gente também precisa conversar depois, Antonio.
    Antonio abre a porta entra sem dar resposta. Sua cabça está dando voltas, mil sentimentos misturados… Talvez Maura tenha outro homem, como diz Silvia… Mas isso não interessa, isso não é da sua conta. O mais importante para Antonio são seus filhos. Que Maura o humilhe, ofenda, critique, acuse, tudo bem… Ele aguenta, tá tranquilo. Mas que ela magoe seus filhos, isso não dá pra aceitar…


 
Capítulo 34

    Maura dá um sorrisinho ao ver os filhos. Mas ela não parece nem um pouco feliz ao vê-los... Seu sorriso é meio forçado, cansado... Laura também sorri, mas não se aproxima da mãe, fica parada junto à porta... Tiago corre e abraça Maura, dando um suspiro emocionado... Que cena!... Antonio observa a reação dos filhos e sente uma grande tristeza.
__ E aí, crianças? - Maura meio que afasta Tiago de si - Como estão?
__ Como você acha que a gente tá? - pergunta Laura.
__ Olha, eu sei que isso tudo é meio louco, mas... Eu queria ter vindo antes, pra conversar com vocês... Mas não deu. Então, tô aqui agora pra gente conversar.
__ Conversar sobre o quê? - a pergunta de Tiago tem um tom de mágoa...
__ Bom, sobre tudo. Eu sei que vocês não são mais criancinhas, que já entendem as coisas... Seu pai e eu estamos separando. E eu decidi ir morar em São Paulo. - Maura fala muito simplesmente, sem medir as palavras...
__ Quanto tempo vai ficar em São Paulo? - quer saber Laura.
__ Não sei... Talvez pra sempre.
    Laura e Tiago se entreolham e depois olham para Antonio. Eles estão surpresos... Ou talvez chocados... Ou indignados...
__ Pra sempre... - repete Tiago - Isso é muito tempo, né...?
__ Quando você vai? - Laura pergunta ao mesmo tempo em que senta numa cadeira perto da porta.
__ Logo. Talvez daqui a duas semanas, um mês... O mais rápido possível.
__ Tá fugindo do quê, mãe? - agora Tiago é bem direto e parece ao mesmo tempo intrigado e revoltado...
__ Não tô fugindo de nada! Seu pai e eu estamos separando, já disse... A nossa vida junto acabou, não dá mais... Agora é cada um pro seu lado, pra viver a sua vida. Eu decidi viver a minha longe daqui...
__ Longe da gente. - não é uma pergunta, mas uma afirmação que Laura faz...
__ Olha, Laura, vocês tem o Antonio, a Silvia... Eu nunca cuidei legal de vocês mesmo...! Não curto muito esse lance de ser mãe, dona de casa, sabe?... - Maura se agita, gesticula nervosamente... - Vocês vão ficar muito bem com seu pai, muito melhor do que comigo.
__ Porquê vai pra São Paulo? - pergunta Tiago - Vai fazer o quê lá?
__ Tem uns amigos que me ofereceram trabalho lá... Mas eu já tava pensando faz tempo em sair do Rio. aqui não dá mais pra mim não...
__ Você não gosta mais do papai, não é?...
__ É... Eu gosto do seu pai sim, Laura. Mas não gosto mais como marido, sabe?... O amor acabou faz tempo...
__ E você não gosta mais da mamãe, pai?
    Antonio respira fundo, passa a mão nos cabelos e pensa calmamente na melhor maneira de responder a isso...
__ A gente se gostando ou não, juntos ou separados, ainda somos seus pais. - ele finalmente diz depois de um silêncio rápido - E é isso que importa, é isso que vocês precisam saber. A gente não vai deixar de ser seus pais porque se separou.
__ É isso mesmo, Antonio. Seu pai falou tudo. Junto ou separado, ainda sou mãe de vocês. Apesar de não ser lá essas coisas como mãe... - Maura parece mais tranquila e dá um sorriso - De vez em quando eu venho ver vocês... E vocês também podem ir me ver...
__ Você tem outro cara? - novamente Tiago é direto...
    Maura arregala os olhos, surpreendida com a pergunta do filho. Está visivelmente sem graça, nervosa...
__ Não, claro que não...!
__ Isso não é assunto pra vocês, filhos. - fala Antonio - Isso é coisa entre eu e sua mãe...
__ Claro que é assunto nosso! A gente precisa saber o que tá rolando, pai!
__ Filho, eu...
__ Se ela tem outro cara e tá indo viver com ele, acho que a gente precisa saber sim! Melhor saber logo tudo o que tá rolando...!
__ Não tá rolando nada, Tiago! -diz Maura ainda aflita...

Capítulo 35


    Não é tão fácil como se esperava que fosse. Enquanto Maura se mostra aflita, incomodada com as perguntas dos filhos, Antonio não consegue entender ainda o que está acontecendo em sua vida… Principalmente agora, diante dos filhos e de Maura, ele não consegue entender que rumo sua vida está tomando.

    Mas entende que em algum momento seu casamento se desnorteou e ele não conseguiu perceber… Agora as coisas se mostram como realmente são. Maura se mostra como realmente é…! Se há outro homem na vida dela, pouco importa a Antonio. Não está preocupado com esse tipo de traição… Maura podia traí-lo, mas não podia trair seus filhos! Esta sim, é a grande revolta dele e talvez não a perdoe nunca por isso.

__Eu… Eu preciso ir embora. – diz Maura, ajeitando a blusa e passando nervosamente os dedos pelos cabelos… – Era isso que eu queria dizer pra vocês… Não sei se vou voltar um dia… Acho que não quero mais viver no Rio… Preciso seguir com a minha vida, com meus planos… E acho que você devia fazer o mesmo, Antonio. – ela olha para os filhos – Vocês vão ficar muito bem com seu pai, crianças. Ele cuida de vocês melhor do que eu. E tem a tia Silvia também pra ajudar, né… – ela se aproxima de Laura, dá um beijinho rápido no rosto da menina e depois faz o mesmo com Tiago – Eu já vou. Quando eu chegar em São Paulo ligo pra vocês, tá bom?

    Nesse momento, Silvia aparece à porta da varanda.

__Boa sorte na sua nova vida, Maura. – ela diz, num tom debochado.

__Valeu, Silvia. Sei que não gosta de mim, mas te agradeço por cuidar bem dos meus filhos.

__Eu cuido dos filhos do meu sobrinho. E se quer saber, tô aliviada que vocês separaram!

__Tia, por favor! – fala Antonio.

__Mas é verdade, Antonio… Eu…

__Chega, tia! – Antonio grita, irritado, mas com certeza não com a tia…

__Bom, eu já vou. Adeus, Antonio. Seja feliz. – ela oferece a mão para ele…

Antonio ignora o gesto de Maura, se levanta, abraçando os filhos e diz:

__Vai em paz, Maura.

    E ela foi embora. Laura começa a chorar e é confortada por Antonio, enquanto Tiago se desvencilha do pai e entra, batendo a porta com força…

__Ela não vai voltar, não é?… – pergunta Laura.

__Não sei, filha… Não sei dizer…

__Eu espero que não volte nunca mais! – diz Silvia, abraçando Antonio e Laura.



Capítulo 36


    Cedo ou tarde, Maura deixaria seus filhos de lado. No fundo, Antonio sempre soube disso… Ela é uma pessoa um tanto seca, pouco afetuosa, principalmente com os filhos. É horrível pensar que uma pessoa prefira levar uma vida inconstante e inconsequente…! Mas Antonio já pressentia isso, apenas tinha esperança de que Maura pensasse nos filhos e não fizesse nenhuma loucura…

    O que ele vai fazer agora? Como vai consolar seus filhos? Como vai fazê-los entender essa situação? Ele não sabe… O que sabe é que seus filhos estão sofrendo por causa da irresponsabilidade da mãe! Precisa consertar isso…! E pensando assim, Antonio resolve ligar para Maura.

__ Alô? - diz a voz esganiçada…

__ Oi, Maura. Antes de você ir pra São Paulo ou seja lá pra onde, precisamos conversar.

__ Antonio… Tá me ligando a essa hora pra falar isso?! Meia noite e quinze, Antonio!

__ Isso não importa. Quero ter uma conversa séria com você, Maura.

__ Qual é, cara! Quer falar o quê?! A gente já conversou… Não tem nem uma semana que fui ver as crianças, Antonio…!

__ É sobre eles mesmo que vamos falar, Maura.

__ Chega, tá! Já deu esse papo, porra! 

__ Já deu pra você, pra mim não! - ele quase grita, está muito, muito irritado!... - Não vou deixar que sacaneie os nossos filhos por conta de um capricho idiota, Maura! A gente vai conversar amanhã e colocar as cartas na mesa, entendeu?

__ Tá falando  do quê…? 

__ Eles têm o direito a uma explicação verdadeira, Maura. E não essa conversa fiada que você fala o tempo todo!

__ Tá querendo dizer o quê exatamente, Antonio?

__ Pouco me importa o que vai fazer da sua vida… Mas você tem mais duas vidas que são sua responsabilidade! Não quero saber nada da sua vida, mas da vida dos meus filhos, sim! Amanhã a gente conversa. Você pode ir num bar que tem perto Maison, na hora do almoço, ok?

__ Não, não vai dar não…

__ Eu te espero lá, Maura!

__ Não vai dar, caramba!

__ Vai ter que dar! Não arrume mais desculpa, Maura!

__ Não tô mais no Rio, Antonio!

    Ele fica mudo por instantes…

__ O quê?...

__ Eu… Eu já tô em São Paulo. Cheguei na terça-feira.

__ Como assim, já tá…? 

__ Então, eu consegui vir… Tô me ajeitando ainda, mas as coisas vão melhorar…

__ Como assim, tá em São Paulo, Maura?!? E as crianças? Você nem se despediu delas!

__ Eu vou ficar por pouco tempo aqui… Talvez vá pro Paraná… Tenho uma prima lá… Você lembra dela, veio no nosso casamento, ela…

__ Não é pra mim que tem que explicar, Maura! - agora sim, ele grita, está furioso, frustrado, decepcionado…! - É pros seus filhos!